Sábado, 21 de Junho, 2008
Estou neste momento na Carapira, a participar num curso para os professores das escolas comunitárias e ontem à noite passei pela casa dos leigos, onde existe uma coisa que muita gente diz ser mágica…uma televisão!!
Depois de assistir a um episódio de uma qualquer novela (é impressionante que as novelas continuam a ser iguais, uma pessoa vê um episódio e já percebeu tudo) passou o filme "Diamante de Sangue".
Já tinha visto este filme antes pouco tempo antes de vir para cá, mas agora, ao revê-lo em solo africano, as sensações foram completamente diferentes.
Lembro-me de olhar para as imagens das ruas daquelas cidades e pensar "que confusão, tudo misturado, lixo por todo o lado, como é possível se viver ali?". Agora, ao olhar novamente para essas ruas, vi as ruas pelas quais passeio quando tenho de ir à cidade e, se bem que o lixo era completamente dispensável, a parte da confusão e das misturas é precisamente aquilo que traz o encanto a estas cidades.
Depois existem ainda partes do filme que me fazem pensar um pouco sobre todo o contexto africano e sobre a influência que tem ou não o trabalho que é feito cá por estrangeiros.
A certa altura, o actor principal, falando para uma jornalista diz qualquer coisa do género: "tu vens para aqui com os teus toalhetes desinfectantes, com as tuas vacinas para tudo, com os teus remédios para a malária e pensas que vens fazer alguma coisa?!" e fala também na expressão "TIA – this is Africa (Isto é África)", no sentido de que não há nada que se possa fazer, África é mesmo assim.
Daqui não me falta nada, tomei todas as vacinas, trouxe os meus antimaláricos, os toalhetes desinfectantes também não podem falhar e, de facto, vim a pensar que vinha cá para fazer alguma coisa.
Agora, quase 6 meses depois de cá ter chegado, e a cada dia que passa me sinto mais realizada com aquilo que faço e enquanto experiência sem dúvida que está a ser bastante gratificante, no entanto, a cada dia que passa perco mais a esperança de alguma vez esta população possa sair da miséria. (eu que antes de cá chegar acreditava que seria possível acabar com a pobreza a um horizonte de poucas gerações).
De facto, a forma como o sistema está montado é completamente os ricos cada vez mais ricos, os pobre cada vez mais pobres! Entram rios de dinheiro neste país para todos os projectos e mais alguns, quase tudo o que por aqui circula, desde salários, a medicamentos, vem de fundos estrangeiros, e onde anda esse dinheiro? Com certeza nos bolsos de alguns que por aqui pouco se vê!
Enfim…. TIA…
Até outro dia!
3 comentários:
mmmm.... que bom texto para digerir antes de partir em Ponte...
bjs
Bom, talvez me faltem os teus 6 meses de experiência em Moçambique, e seja mais um maçarico com ideias europeias que não sabe do que fala....
A minha esperança é real e acredito na mudança efectiva. O mundo precisa neste momento de uma evolução/mudança espiritual, ao invés das económicas, políticas, sociais... etc.
A mudança de paradigmas não pode ser feita com base nos efeitos, mas sim na base e essa é a espiritualidade. Podemos e devemos trabalhar nos efeitos no curto prazo mas temos que construir a verdadeira mudança no longo prazo...
Pois, Joana. E agora até estão no Japão reunidos os líderes do G-8 e para falar sobre a fome nada melhor do que uma modesta refeição com 20 pratos... e manter a situação de pobreza de milhões e milhões de pessoas deve interessar a alguns...
Continua a tua luta. Vale sempre a pena dar o que se pode. é a nossa pequena contribuição do imposto de humanidade que todos dfevemos pagar... Beijos. Tony
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