Quinta-feira, 30 de Maio, 2008
Lembro-me vagamente, de quando comecei a viajar pelas fantásticas auto-estradas de Itoculo (em que embondeiros e cajueiros fazem de tabuletas, o capim delimita as faixas de rodagem, e o piso é do melhor tipo que se pode encontrar, intercalando areia com lama, buraquinhos e crateras) ter pensado que nunca na vida havia de me conseguir orientar nestas estradas, nem tão pouco seria capaz de conduzir no meio de tanto buraco.
Pois bem, afinal é possível!!! Não só consigo conduzir no meio de tanto buraco (aliás, para conduzir em buracos até tenho muito jeito… consigo acertar em todos, mesmo naqueles que parecia impossível!!!), como ainda consigo encontrar o caminhos para regressar a casa!!!
Assim, resolvi ontem ir fazer visitas a escolas comunitárias, a irmã Adelaide foi comigo mas, embora ela já cá esteja á uns 3 anos, como não conduz, não sabe muitos mais caminhos do que eu.
Sabia mais ou menos onde queria ir, eram 5 escolas, uma delas completamente na ponta, nos limites da paróquia de Itoculo, sabia mais ou menos a direcção, e lá fomos, parando para perguntar indicações e não errar o caminho e assim fizemos cerca de 200 km (só para reforçar, já que o Miguel quando cá veio foi uma das coisas que lhe custou acreditar, estes 200 Km foram todos em terra batida, e nem sequer andei perto de nenhuma estrada de alcatrão).
Foi uma experiência deveras interessante, normalmente quando vou assim até às comunidades é aos domingos, e vou sempre com os padres, que já sabem o caminho e não precisam de andar a parar para perguntar, e quando se chega às próprias comunidades estamos com "o senhor padre" e o tratamento é sempre feito com um pouco mais de formalismo.
Assim, viajando sem conhecer tão bem é bem divertido ir parando e conversando com as pessoas no caminho. Algumas aproveitam para contar histórias das terras que nós procuramos, o porquê dos nomes e afins, com outras é hilariante a tentativa de nos entendermos mutuamente entre o português e o macua, existem ainda aquelas que, nada preocupadas em serem entendidas, falam e falam tudo em macua, e mesmo com a minha cara de quem não percebeu nada, continuam a falar e a falar, e quando nos despedimos para seguir caminho fazem um sorriso, como se de facto aquela " conversa" tivesse sido muito boa, depois existem também os que se oferecem para entrar nas traseiras do carro e nos ir indicando o caminho (afinal não é todos os dias que existe a possibilidade de se dar uma voltinha de carro).
Os caminhos em si, também têm zonas lindíssimas, pequenos bosques encantados, onde o homem ainda não ganhou á natureza e esta se mostra com todo o seu esplendor.
Agora em relação ao objectivo desta viagem, que era a visita a escolas, houve boas e más surpresas. As más foram duas das escolas não estarem a funcionar, tentem lá adivinhar porquê…ora bem, eu resolvi fazer as visitas no dia 30 de Maio, é bastante óbvio que não houvesse aulas porque as crianças precisavam de ser dispensadas para preparar o 1 de Junho!!! Como é que eu não me lembrei disso quando programei a visita!! A boa foi ter gostado bastante de ver o trabalho numa das escolas, feito por um professor que até é bastante mauzinho em termos daquilo que sabe, tem inclusive muita dificuldade em ele próprio ler, mas colmata por completo esta falta com a disponibilidade e vontade de ensinar. A verdade é que na 2ª classe a maioria dos alunos dele já conseguem escrever qualquer coisa e tendo como comparação a preparação dada na escola oficial, acho que aqueles miúdos sabem mais que os da oficial.
Foi assim a minha sexta-feira, cansativa, mas soube mesmo muito bem!
Até outro dia!