A viagem começou na sexta-feira, com a ida para Nampula a fim de comprar os bilhetes para o comboio que liga Nampula a Cuamba (a segunda cidade da província do Niassa). Os bilhetes só se podem comprar depois de o comboio chegar, para ter a certeza que ele chega, pois nesta linha apenas existe um comboio, que num dia vem para Nampula, no dia seguinte segue para Cuamba, sempre assim, descansando à segunda-feira.
Já de bilhete na mão fomos fazer umas pequenas compras para nos abastecermos de comida para a viagem e fomos descansar cedo, pois a hora de alvorada no dia seguinte era às 3h30 da matina!!
No dia seguinte, às 5h em ponto (à tabela, como aqui se diz) saímos da estação de Nampula mas… 5 minutos depois o comboio parou… após meia hora de pausa o comboio voltou a andar… mais 15 minutos e nova pausa… mais 10 minutos e volta andar até chegar à primeira paragem a seguir em Nampula. Nesta paragem a máquina deixou o resto do Comboio, para voltar a Nampula e arranjar uma avaria, conclusão: 5 horas paradas numa estação, à espera que a máquina voltasse.
Assim, éramos para chegar por volta das 15h a Cuamba, mas já eram quase 22h quando chegamos, portanto, foram "só" cerca de 18 horas dentro do comboio, felizmente que estávamos em 2ª classe, e vínhamos apenas 6 pessoas por compartimento, o que dava certo para todos termos direito a cama (que é como quem diz, uma tábua espetada na parede, onde nos conseguimos deitar), e quando estávamos sentados, também tínhamos bastante espaço.
Resolvi tirar uma semananita de férias! Lá me organizei com os jovens, com a escola e com a pastoral, de modo a não darem muito pela minha falta, e fui com a Sandra (a voluntária que está na missão da Carapira de quem já falei neste blog) dar uma volta pelo Niassa!
Como diria a minha companheira de viagem: "não poderíamos morrer sem viver uma aventura destas", a verdade é que esta foi uma daquelas viagens em que cada passo era uma aventura, em que nada parecia dar certo e como planeado, mas que no fim acabou por correr fantasticamente bem!
Como a aventura foi de facto grande, e como, talvez por sair daquilo que para mim já se tornou rotina, a minha inspiração para a escrita parece ter voltado, quando dei por mim o texto sobre a viagem já ia um pouco vasto. Assim, resolvi que vou contar aos poucos, assim não se cansam logo, e eu vou tendo matéria para encher o blog durante mais uns tempitos :P
Bem, já vos falei da famosa chima, do peixinho pequeno seco, e de mais umas tantas coisas que começaram a entrar na minha dieta desde que cá cheguei, mas agora sim estou verdadeiramente a abrir os meus horizontes gastronómicos e a comer coisas que em Portugal se me dissessem eu diria redondamente que nunca na vida iria provar isso!!
Então comecei por comer caracóis, sim, é verdade, eu em Portugal sou uma autêntica fã de caracóis, mas estes, dado as suas dimensões, não são uns caracóis quaisquer. Estes caracóis são simplesmente enormes, do tamanho daqueles búzios que pomos no ouvido para ouvir o mar, são mesmo muito grandes, e têm um método de preparação todo xpto, porque têm que ser lavados e mais não sei o quê, e mais não sei que mais! Bem, a verdade é que até são bastante saborosos!
Mas hoje passei um pouco a barreira dos caracóis… COMI RATO!! Eu ouvia toda a gente a dizer que comia rato, e comecei a achar que teria que provar antes de ir embora, comentei isso com as irmãs e hoje para almoço tinha ratos á minha espera. Confesso que achava que eles comiam ratos grandes, e que eram partidos antes de serem servidos, de modo que não se repararia assim tanto que eram ratos, mas não… são ratos pequeninos, e são servidos inteirinhos, cabeça, pele, tudo, e ainda por cima têm um cheiro super intenso… tenho que confessar que não á uma imagem lá muito bonita, e que por alguns segundos me senti tentada a dizer que tinha mudado de opinião, e que já não queria experimentar, mas no fim lá consegui passar o nojo inicial, e comer, até são bons, mas de facto uma pessoa não pode pensar muito naquilo que está a comer!!!
Bom, vamos a ver o que mais me aparece para comer nos próximos dias!!
Um dos meus alunos e meu jovem, chamado Ramos, estava ontem a falar comigo, começou a falar sobre a família dele. São 9 irmãos, eram 12 mas 3 morreram, ele é o 7º irmão. A mãe e o pai eram casados, mas divorciaram.
Quando ele disse esta parte dos pais se terem divorciado, não liguei muito, não são todos? Aqui casam, descasam, recasam, têm 2, 3, 4 mulheres, traem... enfim, é normal chegar a uma casa que tem 5 ou 6 crianças e cada uma ser do seu pai, e quem sabe até o homem que actualmente está em casa nem é pai de nenhum... enfim, é uma salganhada total... por isso, ele disse que os pais eram divorciados, que vivia com a mãe e com o padrasto, e eu não liguei muito...
Ele voltou a falar disso mais á frente, calhou que nessa altura estava a olhar para ele, e reparei que no rosto dele algo se alterava...Sofreu com o divórcio, sofre por estar longe do pai... mas eu não tinha ligado muito quando ele disse...
Se fosse em Portugal teria ligado, mas aqui, é tão normal, parece que me esqueci do que uma criança pode sofrer com isso...
Liguei então ao que ele disse, falamos mais um pouco, antes de correr para junto dos colegas que se divertiam atrás de uma bola, ele agradeceu e sorriu...
Professor Gaspar: A professora já não vai poder voltar para Portugal
Joana: Então Porquê?
Professor Gaspar: é que Itoculo está a fazer-lhe mesmo bem!
Joana: Porquê?
Professor Gaspar: está a ficar mais gorda e mais baixa!!!
Joana: Mais baixa?
Professor Gaspar: Sim, desde que chegou tem diminuído!
E é assim que se vão recebendo elogios, por cá dizer que está a ficar gordo é um autêntico elogio, baixo é que não sabia, mas parece que pelos vistos também, e pelos vistos já devo ter diminuído uns centímetros! lolol!
Finalmente algum instituto estatal se lembra de vir dizer publicamente que o estado do ensino não está bem, no entanto tem piada que dizem que não está bem e na mesma frase pedem subsídios…Como dizem por aqui: Não há maneira!!!
Instituto Nacional de Desenvolvimento da educação (INDE) avalia impacto do currículo do ensino básico Ensino é mau em Moçambique - reconhece Albertina Moreno, directora Nacional adjunta do INDE "Reconhecemos que a qualidade de ensino no país não respira boa saúde por isso queremos partilhar os problemas e obter subsídios de informação como forma de melhorarmos o currículo" "Os alunos não sabem ler e escrever, faltam e até desistem algum tempo das aulas mas no final do ano transitam de classe. Os professores não tem preocupação de ensinar os alunos porque sabem que no fim do ano os mesmos vão transitar de classe"
Deixo-vos apenas uma pequena notícia que apanhei, para verem como de facto, a estatística consegue transformar a realidade, aqui vai o que diz o nosso ministro da educação, sugiro-vos que releiam os posts em que fiz criticas ao ensino, e que vejam as diferenças!
A qualidade de ensino no país tem estado a melhorar, mercê do esforço conjunto que está a ser realizado no âmbito da formação de professores, colocação atempada do livro escolar, construção de novas salas de aula e implementação do novo currículo do ensino básico, segundo defendeu ontem o Ministro da Educação, Aires Ali, falando na Segunda Reunião do Ensino Básico. Em resultado do esforço em curso, que inclui o apoio directo às escolas, segundo Aires Ali, há resultados positivos no Ensino Primário do Segundo Grau, em particular, que se traduzem no aumento do número de graduados no último ano. Com efeito, foram graduados 230 mil alunos, representando uma taxa de 46 por cento, mais dez em relação a 2006. Entretanto, ainda prevalecem alguns desafios, sobretudo no que respeita à graduação de raparigas.
Cinquenta anos são muita coisa, e foi isso que festejámos ontem aqui em Itoculo, 50 anos de vida consagrada da Irmã Alice.
Calhava numa terça-feira e então tínhamos falado com ela de na quarta-feira, como já é habitual jantarmos todos em casa das irmãs, aproveitarmos e festejarmos, e depois, mais tarde se faria uma festa maior, juntando os 50 anos dela, com os 35 anos da irmã Adelaide que serão no fim deste mês.
Mas, meio em segredo, achámos que seria pouco, e já que "50 anos só se fazem uma vez na vida", deveríamos marcar o dia de alguma forma mais especial!
Assim foi, eu tratei de organizar com os jovens a animação da celebração e uns cânticos de parabéns para depois da celebração (que na altura precisa não saíram, mas isso agora não interessa nada), a irmã Joyce organizou uns bolinhos e sumos para distribuir pela comunidade, todos deram o seu contributo (até a minha mamã, que mesmo só de passagem foi a nossa chefe de cozinha e coordenou a preparação de um jantar à maneira) e na celebração a comunidade compareceu em peso.
Assim, depois de uma celebração bastante animada e bonita (embora um pouco desafinada, que eu e os meus jovens ainda não atinámos no tom :P), onde a irmã fez a renovação dos seus votos, tivemos um animado encontro com a comunidade, com as tradicionais danças e cânticos, com bolinhos e suminho, onde todos dançamos e saltamos.
Finda a festa com a comunidade fomos para a nossa festa em comunidade missionária, com um jantar bem á maneira, com tudo o que alguém que faz 50 anos de vida consagrada tem direito!
Penso que a irmã Alice, que desconfiou de qualquer coisa no próprio dia mas não sabia de nada, ficou muito feliz, afinal após 50 anos de entrega a Deus e aos outros sabe sempre bem partilhar esta festa com toda a comunidade de uma forma simples, mas especial.
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Quinta-feira, 15 de Agosto, 2008
Em Nampula, existe um mosteiro de uma ordem de irmãs contemplativas. É um local lindíssimo, dominado por uma pequena montanha de onde vai escorrendo um rio. Por todo o lado o silêncio impera e deixa a natureza tomar conta dos nossos sentidos. Mas, de vez em quando, este silêncio é quebrado… são os risos das crianças que se vão ouvindo aqui e ali… como é bom o riso das crianças!
As crianças são na maioria órfãs, ou abandonadas pelos pais, devem ser umas 30, foram ali acolhidas e ali vão crescendo com sorrisos bonitos e risos contagiantes, que escondem passados muitas vezes não tão bonitos nem tão saudáveis.
Uma das meninas que lá está chama-se Domingas, é da paróquia de Itoculo, da região de Chihire, já não me lembro muito bem da história, mas penso que a mãe morreu de tuberculose, o pai esteve muito mal e a menina ia morrendo também, quando os padres a deixaram no mosteiro nunca acreditaram que ela ia sobreviver. Mas ela sobreviveu e está bem viva, embora mantenha alguns problemas físicos, já lá vão alguns anos, e está como era super saudável.
No mês passado a Domingas estava a brincar debaixo de uma árvore, de repente viu uma luz forte por cima da árvore, olhou melhor, era uma senhora, chamou logo os amigos que brincavam mais próximo, apareceram mais 6 crianças, viram também, a senhora pareceu-lhes familiar, era parecida com a que tinham visto na capela, era Maria?
Olharam uns para os outros, sem saber bem o que fazer: "vamos ajoelhar?"; "As irmãs costumam ajoelhar!"; "Vamos ajoelhar! Vamos rezar!"; "Ave Maria, Santa Maria, Ave Maria, Santa Maria" não era a oração completa, mas eram tudo quanto sabiam, a Senhora sorriu…
Uma das crianças, o Samuel, tem apenas um ano e meio, apenas apontava e sorria.
"Vamos cantar uma canção!", decidiu uma das meninas. Começaram a cantar uma música a Maria, na música uma parte da letra pede a Maria para levar os seus pedidos a Jesus, nesta altura um bebé apareceu nos braços da Senhora, também ele sorriu…
Entretanto chegou a mamã Júlia (uma senhora cabo-verdiana que dedica a vida a estas crianças, e que à falta da mãe verdadeira é uma autêntica mãe para cada uma delas), e as crianças contaram-lhe o que acontecera, ela foi logo contar à superiora das irmãs que com paciência tudo ouviu.
No dia seguinte a superiora chamou as crianças uma a uma, fez perguntas, insistiu, baralhou… nenhuma criança se atrapalhou, nenhuma criança mudou seja o que fosse da história, nenhuma criança se contradisse, nenhuma criança se enganou…
Maria estava toda de Branco, mas a luz que irradiava era de muitas cores, assim é o coração das crianças, branco de pureza, mas irradia todas as cores da alegria.