segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Mountain Kingdom

De volta às viagens em África, de volta às peripécias, de volta às paisagens deslumbrantes, de volta à proximidade com o povo, de volta ao porquê deste continente nos apaixonar e enfeitiçar.

Findo um projecto que me deixou sem vida os últimos 2 meses, fui com a minha colega “limpar a cabeça” e partimos até ao pequeno, pequeno reino do Lesotho, um conjunto de montanhas, completamente cercado pela África do Sul, e cujo ponto mais baixo tem 1400 metros.



Bom, para começar, há um pequeno problema com o Lesotho, é que fica lá… lá… lá em baixo, a quase 1000 km de distância de Maputo, e com muita África do Sul para percorrer pelo meio, portanto a meio do dia, lá saímos nós de Maputo, com muita estrada pela frente!

Primeira noite, ficámos numa cidade chamada Ermelo, ainda na África do Sul, chegámos e lá fomos à procura do sítio mais barato, passamos num backpakers….cheio! Passámos numa pensãozeca, dizem um preço que achamos caro de mais, mas que nos dizem ser o mais barato de toda a cidade….não acreditamos e continuamos a procurar… uma hora de muitas voltas, e muitos sitos mais caros que o primeiro, chegámos a uma pensão fabulosa (a melhor de todas as que tentamos), em que o preço para uma pessoa era tanto como na 1ª o total das duas….ora bem, faço uma cara triste, e ele diz “bom, mas podem sempre preencher o quarto como se fosse só uma pessoa!” :) :) Portanto, ficámos na melhor, pelo preço da mais barata!

Segundo dia, depois de muitas obras na estrada, de muitas horas de carro, a meio da tarde entramos finalmente no Lesotho! Logo na fronteira, inundam-nos as buzinas (por momentos vieram-me as recordações de Díli e Manila, sempre bom recordar cidades pela quantidade de poluição sonora!!), os carros misturam-se de um lado para o outro sem se perceber bem qual o lado correcto, claramente saímos da África do Sul. A contrastar com as casas pobres, e com as vilas típicas de uma África interior e esquecida, a estrada em que conduzimos está em condições óptimas, o sistema de estradas faz parte das grandes contestadas barragens construídas no Lesoto, para abastecer de água a África do Sul, e por isso temos um “país africano”, com estradas sul-africanas (http://pt.wikipedia.org/wiki/Barragem_de_Katse)!

Chegamos já quase de noite à capital, Maseru, onde o Lonely planet nos deixou ficar mal, ao falar de um backpackers que não só não existe, como o sitio onde é indicado é, pelos vistos, na zona mais perigosa da cidade… mas, como a sorte sempre acompanha duas meninas em viagem, houve um senhor a quem tínhamos pedido indicações, que, ao nos ver a ir perdidas para aquele lugar, nos seguiu e nos acompanhou até arranjarmos um bom sitio para ficarmos!

Não ficamos muito tempo na cidade de Maseru, tal como grande parte das cidades que tenho conhecido por aqui, não se morre de amores por esta cidade ao primeiro olhar, mas acredito que alguns dias por lá me fariam mudar de ideias. Estas cidades são cidades que não nos prendem pela sua beleza visual em si, mas si pela vida que contêm, assim, sem dar tempo para beber dessa vida, acho que é difícil gostar delas.



Seguimos então para as montanhas, aí sim, onde a beleza visual nos cativa desde o primeiro olhar. A caminho passámos por Morija, cidade que acolheu a primeira missão deste país (o pais é maioritariamente cristão, e os missionários tiveram também um papel relevante na luta pela independência), e onde se encontra o único museu de todo o Lesotho. Tivemos direito a uma aula de história, que nos levou desde ao primeiro rei, até ao actual, passando por algumas práticas e costumes locais. O museu é minúsculo e não tem grande coisa, mas é muito interessante, e as pessoas são super simpáticas.




A seguir ao almoço chegamos finalmente às montanhas….ahhh, as montanhas…. Uma paz, uma beleza!...No primeiro dia passeamos só pela aldeia, no dia seguinte fizemos uma caminhada de 8 horas, passando por umas cascatas e por umas piscinas naturais…é simplesmente fabuloso, não só a beleza natural, mas a forma como as pessoas ainda se enquadram nesta natureza, como fazem parte da paisagem e a embelezam com os seus cobertores pelos ombros, enquanto passeiam os animais.




Nesta caminhada tivemos como guia um jovem lá da aldeia, que nos contou imenso sobre os ritos de iniciação, as tradições do povo, o orgulho de ser basoto (nome do povo do Lesoto), e foi interessante ver como, nas vidas dos jovens da nossa geração, perdidos nas montanhas do Lesoto, o tradicional se junta ao actual, e os jovens fazem os rituais de iniciação, mas usam rastas, ouvem e Bob marley e dançam break dance!

Três dias depois era tempo de voltar à estrada (snif!), o que vale é que a beleza das paisagens da África do Sul (país que tem me tem surpreendido muito, muito pela positiva) fazem as viagens em nada ser monótonas. Aqui, mais uma vez o golpe de sorte, já ao fim dos dia, 10 horas de condução depois, não me apeteceu parar logo na cidade onde tínhamos sítios para ficar, e já a anoitecer, continuar numa estrada no meio do nada, à espera que algum sitio por milagre aparecesse….e…. do nada, um centro de observação de aves, absolutamente vazio, e não só nos deram estadia como ficamos na suite pelo preço da camarata, só porque sim!! :).

Ainda passamos pela Swazilandia (que é a caminho) e ficámos uma noite num backpackers num parque natural, dos melhores backpackers em que já fiquei, com direito a impala para jantar! Dia seguinte passeio de cavalo pelo parque (e cheguei à conclusão que deve ser muito, muito giro, para quem efectivamente sabe andar a cavalo….) e regresso a Maputo!

Ai, e depois desta viagem….quero continuar a viajar…viajar e viajar e viajar…vamos?!

Até outro dia,

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

As maravilhas do preservativo feminino

As meninas mostram-me as suas pulseiras novas, as crianças mostram os balões magníficos, os jovens as bolas com que jogam o seu futebol de pés descalços. Todos eles vêem imensas vantagens no preservativo feminino quando comparado com o masculino, a parte do aro cabe em perfeição no pulso e faz as delícias da moda, por ser maior os balões têm muito mais piada, e permite fazer perfeitas bolas de futebol que seriam bem mais complicadas com o masculino. Sem dúvida um instrumento de alta utilidade em terras distantes.

Felizmente os doadores também viram estes benefícios, e por isso milhares e milhares preservativos femininos foram distribuídos em pequenas comunidades do interior, juntando-se assim aos milhares de preservativos masculinos que por estes centros de saúde já se amontoavam.

Falta medicamentos para tudo e mais alguma coisa, não há anti-retrovirais, os testes para a sida não funcionam há quase tanto tempo quanto existem, mas não se preocupem: há preservativos para todos!

Até outro dia,

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Simplesmente adolescentes num fim de dia de aulas

Tudo é diferente, tudo funciona de um diferente modo, um outro mundo, uma outra maneira de olhar o mundo, uma outra forma de estar no mundo. Desde que cheguei, todo o tempo que já cá estive, pensei nas diferenças, critiquei ou elogiei este outro mundo, sempre à luz das diferenças.


Ontem passei em frente a um liceu na hora de saída…. Mini saias em grupo trocavam olhares e piropos com rapazes que também em grupo se riam e torçavam, uns mais ariscos, juntavam-se ao pares em cenas mais ou menos picantes. Em frente duas barracas vendem fastfood, miúdos amontoam-se na banca, a comer os hambúrgueres que escorrem óleo e molhos enquanto esperam o autocarro.

Não há Mac Donalds, as roupas estão rasgadas, o chapa que apanham em nada se parecem com os nossos autocarros, e a casa onde chegarão será provavelmente num sobrelotado bairros periféricos… mas… São adolescentes, são simplesmente adolescentes num fim de dia de aulas…

Até outro dia,

domingo, 31 de outubro de 2010

A Ilha do outro lado

Inhaca, 24 de Outubro, 2010
(Fotos da Paula)









Até outro dia,

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Changana e os Sul Africanos

Hoje nas aulas de changana estávamos a falar dos nomes que em changana se usam para as pessoas dos diferentes países, ingleses, franceses, portugueses e por aí fora, quando chegámos aos sul-africanos descobri que não existe em changana uma palavra para Sul-Africanos, existem duas: uma para sul-africanos negros, outra para sul africanos brancos…. Assim, se vê como tudo isto é tão recente e tão presente, que a língua falada, aquela que não se escreve, ainda não sentiu necessidade de se adaptar….


Até outro dia,

domingo, 24 de outubro de 2010

Mais um salto à fronteira

Namacha, 3 de Outubto, 2010
(Fotos da Eva)







Até outro dia,

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Reflexões sobre o trabalho

Grito Negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

José Craveirinha (Moçambique)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Olá, olá!


Pois, já lá vai algum tempo que não escrevo nada, entretanto até tinha bastantes coisas para escrever, mas tenho passado tanto tempo em frente ao pc, e o trabalho tem sido tão stressante que quando paro o que menos me apetece é ainda continuar no pc a escrever.

Mas o fim de semana passado foi tão bom que me obriga mesmo a partilhar!

Então, aproveitando que todos os meses tenho que ir à fronteira por causa do visto, o fim de semana passado fui à Suazilândia a um parque chamado Hlane (é de lá que vem o filme do post anterior!)

Opá, foi qualquer, qualquer coisa mesmo!

Éramos 4 e ficámos numas casas perdidas algures no meio do parque, de modo que a partir do anoitecer (portanto 6 da tarde) “não era aconselhável” sair de casa por causa dos animais. Logo na ida do sitio principal do parque (onde ficava a recepção e afins) até à nossa casa, em vez de demorarmos os normais 20 minutos, demorámos quase uma hora porque : “olha uma girafa no meio da estrada”, “olha gazelas”, “olha impalas”; “olha …”, fantástico mesmo.


Logo nesse dia que lá chegámos, depois de almoço, fomos fazer um safari a pé! Epá…. Safari a pé é qualquer coisa… andar ao lado de girafas, para a observar rinocerontes brancos, e andar a nos escondermos atrás dos arbustos para ver elefantes, nem tem explicação… é mesmo qualquer coisa. Claro que se tem que ir com um guia, tem uma série de regras, que digamos que riscos à sempre, mas epá…. Fiquei mesmo sem palavras, foi uma experiência fabulosa.



Mal acabamos o safari fomos para casa, que se fazia noite, e a essa hora já tínhamos que estar enclausurados em casa. Já em casa, depois de cozinhado o jantar, deliciamo-nos com uma excelente conversa, mas cedo nos deitámos, que a hora de despertar no dia seguinte era às 4h30 para irmos fazer um safari, desta vez de jipe, ao nascer do sol.

Foi aí que filmei o elefante, que foi um momento fabuloso, era também suposto vermos leões, mas eles não quiseram que os víssemos…e portanto ainda não foi desta que vi um leão.


No regresso à fronteira passamos por outro parque natural que ficava mais ou menos a caminho, para irmos fazer uns trilhos a pé, ou assim. Chegamos à entrada e a senhora disse que naquele parque não havia amimais perigosos portanto estávamos à vontade para fazer os trilhos a pé que eles tinham demarcados. Muito bem, estacionamos o carro numa zona que eles têm de campismo lindíssima, e lá vamos nós tentar um trilho que nos parece giro.

1ª tentativa de trilho: uns 10 metros depois do inicio do trilho temos que passar pelo leito de um rio que estava seco, e seguir o trilho do outro lado. Muito bem! A meio do rio o David pára (bastante contente e a apontar para ao lado do trilho que tínhamos que seguir): “olhem, um lagarto gigante!” e o lagartinho passa mesmo pelo trilho que tínhamos que seguir: Qual lagarto gigante qual quê: ERA UM CROCODILO, pronto vá, um crocodilo jovem, pronto vá, uma bióloga já me disse que ele não teria feito mal, mas….. era um crocodilo!!!! Claro que, voltamos para trás, mas com a desculpa oficial de que “dava a sensação de que o trilho mais à frente tinha muita vegetação e não dava para passar” obvio que nós não íamos ter medo de um crocodilo! Obvio!....

2ª tentativa de trilho, 20 metros à frente, o trilho desaparece…


Nesta altura pegamos no carro e vamos para outra zona de trilhos:

3ª tentativa de trilho: “pithons poll” era o nome do trilho…anuncio logo no inicio: zona potencial de pitons, tomem cuidado…pois, desculpa oficial: era tarde! Mas neste ainda andamos um pouco e este sim valeu a pena que a zona era lindíssima.


Para terminar, ao sair do parque uma vista simplesmente brutal no meio das montanhas, descobrimos um lodge completamente vazio, que é simplesmente qualquer coisa, fomos comer um belo bife de vaca (a carne de vaca na Suazilândia é super famosa, e faz jus ao nome) e voltámos para confusão da metrópole!

E assim se resume o fantástico fim de semana que me fez voltar à escrita.


(As fotos mais giras não estão na minha maquina, e para variar não as tenho, mas ficam algumas)

Até outro dia,

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Amanhecer em África

Domingo, 17 de Outubro, 2010
(Hlane, Swaziland)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Hi mina Joana Pedro, wena ke?

Comecei a ter aulas de Changana :)
(Se bem que se isto tiver o mesmo efeito que as aulas que tive de checo, ou com o estudo autodidacta de macua, vou falar changana em 3 tempos…enfim…)

Mas, mesmo para quem como eu nunca chega a conseguir falar, aprender outras línguas tem várias coisas interessantes: Uma das minhas colegas de turma, na primeira aula disse que um dos motivos para querer aprender changana é porque aprender a língua ajuda sempre a perceber também a cultura de um dado lugar. E é engraçado de facto perceber certas coisas onde a língua e a cultura se entrelaçam.

No macua, havia uma coisa que eu já tinha reparado bastante, é que ouvir e perceber dizem-se da mesma forma: “nihiwa” e, de facto, a verdade é que culturalmente no povo macua existe uma hierarquização muito grande, e uma submissão muito grande do povo face às figuras de poder. Assim, quando um pai (que no caso será o tio materno) diz alguma coisa, ou quando um regulo diz alguma coisa, as pessoas ouvem/percebem, não discutem!

No Changana houve uma coisa que já me chamou a atenção (e que fiquei curiosa para saber se também é assim em Macua), não existe palavra para “futuro”, nem para “para sempre”, existem expressões que se usam que dão para utilizar neste sentido, mas não querem dizer bem, bem a mesma coisa. Achei (achámos, que todos os outros na turma também comentaram) interessante, de facto, é tipicamente uma cultura do dia-a-dia e do presente (tb muito do (ante)passado) e isso está espelhado também na lingua!

Até outro dia, (e aqui está uma expressão que se diz em macua, mas não se diz em Changana,snif!)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Chamanculo

Sábado, 25 de Setembro, 2010


Este foi um grande, grande sábado: fiz a minha primeira visita ao Chamanculo, o bairro onde vou desenvolver a minha tese :)

Fui com um arquitecto que já lá trabalhou na área de reordenamento do bairro, há uns anos atrás, e que agora está a trabalhar com um ONG, na área do saneamento básico, neste mesmo bairro.

Espero agora, no inicio, ter bastante oportunidade de ir, essencialmente, entrando no bairro, de ir aos poucos percebendo como as coisas funcionam, sem inquéritos, sem questionários, sem nenhum tipo de pesquisa “cientificamente aceite”, mas ir indo lá simplesmente, e depois mais tarde, lá começarei então a trabalhar na parte da pesquisa mais “cientifica”.

Ficam as 2 únicas fotos que tirei, em todo um dia no bairro!



Até outro dia,

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Gente Humilde

Domingo, 19 de Setembro, 2010


Ontem fui com umas amigas a Xipamanine, uma zona na periferia de Maputo que tem um mercado, conhecido por ser um dos maiores de Maputo e por se encontrar um pouco de tudo, e em particular pela quantidade de roupa (em segunda mão) que se consegue encontrar, a preços bastante tentadores!

Para ir para lá apanhamos o chapa…txiii, que saudades deste Moçambique, em que se apanha chapas! Desde que voltei foi a primeira vez que o fiz (triste mas verdade). Antes de chegar ao chapa andei uns 20 minutos a pé pelo centro da cidade (por onde constantemente ando 20 minutos, 30, 40, 1 hora….) centro este que ao fim de semana está absolutamente vazio, como se fosse uma espécie de cidade fantasma. Depois de apanhar o chapa, bastou começar a sair da cidade e entrar nos subúrbios, para pensar: agora sim, aqui sim, está Maputo ao fim de semana!!

Começou o burburinho normal das grandes cidades, pessoas de um lado para o outro, dos dois lados da estrada as casas davam lugar a bancas, lojas, oficinas, onde o informal e o formal se juntam, numa mistura saudável de cores, pessoas, sons…no fundo, numa mistura saudável de VIDA!

Finalmente cheguei ao Mercado, e aqui sim, senti-me a regressar a onde já chamei casa, recordei a primeira vez que fui ao mercado em Monapo, e como tudo me assustou e fascinou ao mesmo tempo, recordei os mercados em Nampula, mais agressivos, e onde das primeiras vezes tudo me assustava, e como depois passei a adorar poder ir sozinha passar por lá!

Compramos capulanas, como não podia deixar de ser, ao preço que eu conprava lá em cima, e não ao preço que costumo ver à venda no centro de Maputo! Fomos até a zona das calamidades, onde a roupa “doada” pelos países “ricos” é vendida, e percebi que as pessoas dão roupas lindas e perfeitamente boas, sem se perceber bem porquê. E assim foi que actualizamos guarda roupas com as últimas tendências da caridade e voltámos ao chapa de sacos na mão, para irmos até à baixa, beber uma bela cerveja numa tasquinha (nada melhor para terminar a tarde!).

À noite fui a um espectáculo de homenagem a Tom Jobim, o espectáculo foi simplesmente fabuloso, além de serem músicas de Tom Jobim, o que por si só já faria com que fosse fabuloso, o grupo era composto por imensos músicos, e os arranjos musicais, e visuais, estavam efectivamente muito, muito bom. Tocaram a música “Gente Humilde” (letra de Chico Buarque e musica de Tom Jobim) que eu não conhecia, mas que me deixou encantada e com um sorriso no rosto.

Até outro dia,

domingo, 12 de setembro de 2010

Maputo Dancing Dump

Domingo, 12 de Setembro, 2010


Em 2008, quando cheguei a Moçambique pela primeira vez, fiquei em Maputo por apenas um dia, mas nesse dia levaram-me a conhecer a lixeira de Maputo, não entrei lá dentro, poucos estrangeiros o "conseguem" fazer, mas fiquei na porta com os jovens da lixeira que aí se juntam.

Estavam felizes nesse dia, tinha chegado um camião com um carregamento de ovos, ovos que tinham germinado e que por isso não podiam ser vendidos, e os jovens, com sorrisos, cozinhavam os pássaros-embriões em latas pretas da fuligem.

O cheiro era indescritível, as moscas amontoavam-se, cumprimentei cada um dos jovens. Cumprimentei e senti vergonha do que sentia enquanto os cumprimentava, senti uma enorme repulsa… o cheiro, as suas mãos que vasculhavam o lixo, os pássaros amontoados, o calor, as muitas horas de voo quase sem dormir, o primeiro contacto com África…. Quis fugir…

Saí da lixeira o mais rápido que consegui, ainda nesse dia segui para o Norte, Maputo ficou longe… Agora estou de volta a Maputo, mas nunca mais voltei à lixeira….

Hoje fui ver um documentário sobre esta lixeira, vi a porta onde estive, vi os jovens lá a cozinhar…. Voltou o cheiro, voltou a mistura de sentimentos da altura… e a inquetação de às vezes me esquecer deste outro Maputo…

Fica a sinopse do documentário:

http://vimeo.com/10718502
 
Até outro dia,

10 anos do Luarte

Sábado, 11 de Setembro, 2010

Ontem fui ao teatro, ver a reposição de uma peça do grupo Luarte, que faz 10 anos de existência (http://www.teatroluarte.blogspot.com/).


A peça chamava-se JOANA MOÇAMBIQUE, foi apresentada em cena pela primeira vez no ano de 2005, e é considerada uma das peças mais polémicas que o grupo já fez.

A personagem Joana personificava Moçambique, um Moçambique caótico; um Moçambique doente; um Moçambique decadente; um Moçambique que vive de se prostituir aos fundos dos estrangeiros; um Moçambique que vive mais preocupado em agradar a quem lhe pode dar dinheiro, do que com quem é realmente moçambicano; um Moçambique que cada dia perde mais a sua reputação e dignidade, em troca de um estilo de um nível de vida que não é o seu.

Por outro lado, se tomarmos a Joana efectivamente como uma pessoa, então aquela era a caricatura perfeita das centenas de moçambicanos e moçambicanas que se passeiam pelos bares mais finos de Maputo, onde os estrangeiros se passeiam também à sua procura. Poderia se considerar uma troca leal e justa, uns procuram prazer, outros procuram dinheiro, todos conseguem o que procuram, todos ganham…. Mas a verdade não é bem essa, os que procuram o prazer, ficam aqui 2 dias, 2 semanas, 2 meses, 2 anos e depois voltam para o seu mundo, os que procuram dinheiro estão aqui e por aqui ficarão, e enquanto houver quem pague continuaram a vender o seu corpo, até ao dia em que a idade ou a doença não permitam mais, e nessa altura já pouco deles restará…

Um amigo meu, moçambicano, muitas vezes diz que a única maneira de Moçambique se desenvolver será quando recuperar a sua dignidade, aprendendo a “fechar as pernas”: no acto final da peça, Joana Moçambique aparece de pernas abertas, escancaradas, e assim morre corroída pelas doenças que se apoderam do seu corpo.

Até outro dia,

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O Norte de uma ponta à outra

Junho/Julho, 2010
















Até outro dia,

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Itoculo

A professora voltou? Vai voltar para aqui? Vai ficar connosco?

Não, não voltei, não vou ficar, vim visita só! Vim visita só, mas perdi-me a admirar cada espaço e cada momento. Vim visita só, mas desejei voltar, daquele voltar mesmo a sério, desejei ficar. Vim visita só, mas orgulhei-me a ver como os meus miúdos cresceram e são agora homens e mulheres feitos. Vim visita só, mas o só foi tão pouco, tão pouco, que afinal percebi que não voltei. Vim visita só, e percebi que tenho que voltar, voltar mais a sério, voltar com tempo, voltar com espaço, voltar e simplesmente ficar...talvez um dia....

Até outro dia,

Rumo ao norte

Sábado, 3 de Julho, 2010
Olá, olá!!

Depois de um total de quase dois meses em Moçambique, mas quase todos passados no sul, eis que finalmente rumei ao Norte e ainda por cima para fazer o trabalho que mais gosto “passear pelo mato”!! Pronto, ok que era trabalho, tinha obrigações e horários, pontos para analisar, prospecções a ser feitas...mas bolas, percorrer o norte do país de uma lado ao outro no meio daquelas montanhas deslumbrantes...epá, que todos os trabalhos fossem assim!! :)


E depois ficam sempre os pequenos momentos e as pequenas peripécias para contar e as fotos para mostrar:

• Em Cuamba reencontrei a Joana Pedro (a que nasceu depois de mim!!) e foi lá, com ela, que assisti ao Portugal-Espanha num café em que todos os outros torciam por Portugal

• Numa pensão em Ribaue perguntamos se havia água quente, ao que ouvimos a resposta “sim menina, de balde, mas hoje não temos que a lenha acabou”

• No ultimo dia acabar o trabalho na esplanada de Nacala com uma vista simplesmente maravilhosa e recordar o local onde em algumas tardes de domingo ou segunda vinha respirar um pouco daquele mar fabuloso


Epá, venham mais trabalhos destes, que o corpo ressente um pouco, mas o espirito agradece, e muito! :)

Até outro dia

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Mundial na África do Sul

Domingo, 27 de Junho, 2010

Estava eu um pouco frustrada por ir à África do Sul durante o Mundial sem poder minimamente participar nele. Ainda por cima depois de ter feito o voo Lisboa Joanesburgo num avião cheio de espanhóis que vinham ver o Portugal-Espanha, o que ainda ajudou à frustração, mas finalmente, já no fim da minha estadia na África do Sul, lá consegui sentir um cheirinho do Mundial.

Vou para a apanhar o voo em Joanesburgo para o Malawi e depois do check in entro na parte dos passageiros, o aeroporto é gigante, super organizado, tudo limpinho, bonitinho, organizadinho e não muita gente e lá vou seguindo até à zona da minha sala de embarque. Tenho que descer para lá chegar e começo a notar que alguma coisa está começa a ficar diferente… há pois é, a zona do aeroporto onde fica a minha porta de embarque é a zona dos voos africanos e…estamos no meio do Mundial e o Gana ganhou ontem aos EUA!!!!

Dezenas de adeptos do Gana, vestidos a rigor, entoam cânticos de claques, a maioria dos outros africanos juntam-se à festa no orgulho de apoiarem a única selecção africana que ainda está em jogo. A um canto T-shirts da Argélia, Madagáscar e Gana trocam passes entre si, noutro lado um adepto do Brasil exibe os seus dotes de malabarismo incentivado por um grupo de sul-africanos e até de adeptos da Itália.

Soam as vuvuzelas, surgem sorrisos, misturam-se as culturas…. Aioba : bem vindos ao mundial da África do Sul!!!

Até outro dia,

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Bush Fire

Olá, olá!

Mal cheguei a Maputo perguntaram-me se estaria por cá no ultimo fim-de-semana de Maio porque ia haver um festival de música na Suazilândia, eu sempre a perceber “da” em vez de “na” disse que se cá estivesse sem dúvida que iria ao festival, mas achando sempre que o festival era um festival de músicas da swazilandia em Maputo.

Ultimato na semana antes do festival: “Joana , sempre queres vir, somos 9, por isso temos um lugar no carro pr ti” Lugar? Carro? Para ir para Maputo??!!... Não! Bush Fire, o fantástico festival de música do Mundo na Suazilândia: Ali, a 200 Km de Maputo, país pequenino, governado por um rei, todo montanhoso e onde o frio aperta é palco de um festival que no site definem como o único evento do estilo em todo o continente africano!! Ora pois bem, já disse que ia não é? Suazilândia e Bushfire aqui vou eu!!

Assim foi que no último fim-de-semana da minha estadia por Maputo fui conhecer este reino! Tirando a parte do frio, que é sempre difícil de associar a África e que por isso se torna mais difícil de suportar, vale a pena perdermo-nos nestas montanhas, onde as vacas aparecem em todas as paisagens. Dizem que é a suíça de África, bom…é um pouquinho diferente, mas de facto não deixa de ser um país lindíssimo, e comi dos melhores bifes que já comi na vida! Além disso, a mesma sensação que tive ao passar a fronteira de Moçambique para o Malawi: que organização, que cidades e vilas tão organizadas e limpas! Engraçado como países tão próximos, pelos seus caminhos históricos, partilham organizações urbanas tão diferentes.


E o festival? Fiquei fã, só lá estivemos uma noite, mas adorei o espírito! Musica com tons africanos, no publico uma mistura de todas as cores, que cantava e dançava…não sei bem explicar, mas de facto para quem já adora o espírito de festivais, estar num festival no “calor” africano (no caso estava frio, mas a ideia é a mesma :P) é qualquer coisa!

A repetir se possível!

Até outro dia!