Horário dos trabalhadores "não qualificados" numa obra de uma empresa portuguesa: os trabalhadores têm que estar no estaleiro das 6 da manha e trabalham até às 6 da tarde, o que dá 12 horas de trabalho por dia, incluindo sábados – 72 horas semanais. A única refeição que terão será o almoço. “Mas não se preocupem, é tudo legal, a partir das 8 horas pagamos hora extra a todos os trabalhadores.”
Em Portugal estariam provavelmente no desemprego, aqui são reis e senhores do lugar!
Até outro dia,
Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012
Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
É ali no meio
É ali no meio das pessoas que percebo porque é que vim para África a primeira vez; é ali no meio das comunidades que percebo porque é que me apaixonei por este continente; é ali no meio da terra que percebo porque um dia quis voltar; e é ali no meio do nada que percebo porque fiquei.
(depois de 3 dias de trabalho de campo no Malawi, com as comunidades que serão removidas por causa da linha de caminho de ferro)
Até outro dia,
(depois de 3 dias de trabalho de campo no Malawi, com as comunidades que serão removidas por causa da linha de caminho de ferro)
Até outro dia,
Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012
O papel das mulheres recria-se
Uma das coisas que tem marcado o meu trabalho nos últimos tempos é o viajar. Semana sim, semana não, faço a mala para entrar num novo avião, geralmente sozinha. Tal como eu, a maioria das pessoas no avião viaja em trabalho, envergando os seus fatos de trabalho e as suas malas do portátil (aqui eu destoo, com a minha roupa de ‘pessoa normal’ e a minha mochila desportiva onde carrego o portátil – pois é mãe, um dia tenho que ser uma mulher, que já tenho idade, não é?). E, invariavelmente, são sempre muito mais homens que mulheres.
Torna-se por vezes assustador, quando nestes percursos de viagens de trabalho dou por mim a única mulher numa fila para o carimbo dos passaportes, dou por mim a única mulher num hotel, dou por mim a única mulher num restaurante, ou dou por mim a única mulher numa reunião.
As estatísticas em Moçambique mostram isto mesmo, a grande maioria das mulheres (essencialmente no campo, onde vive 70% da população Moçambicana) ainda é proibida de estudar, ainda é forçada a casar cedo, a ter filhos cedo, e tomar conta de tudo o que sejam os trabalhos domésticos, incluindo os fisicamente mais pesados.
E nesta África que cresce, e cresce, nesta África dos grandes projectos, dos homens de negócios, dos grandes investimentos e das grandes explorações dos recursos minerais, o papel da mulher também se recria, e uma nova economia vem crescendo. Onde há tantos homens de negócios sozinhos, abre-se o nicho de negócio para a profissão mais velha do mundo, e se sou muitas vezes a única mulher registada no hotel, raramente sou a única que lá dorme. Vêm bem vestidas, algumas aparentam não ter mais que 14 anos (aliás, as mais novas, são conhecidas na gíria moçambicana como “as catorzinhas”) e entram de sorrisos rasgados no hotel, acompanhadas dos homens que já arrumaram os fatos e as malas do portátil que traziam no avião.
Estas são as mulheres das cidades que crescem em torno dos grandes projectos e dos grandes investimentos, esta mulheres já podem escolher, já não são obrigadas a casar cedo, já não são obrigadas a fazer as tarefas domesticas….e escolhem o caminhos mais fácil, o mais imediato. E é assim que os grandes projectos estão a recriar o papel da mulher na sociedade, e a deturpar totalmente o ideal da emancipação da mulher.
Até outro dia,
Torna-se por vezes assustador, quando nestes percursos de viagens de trabalho dou por mim a única mulher numa fila para o carimbo dos passaportes, dou por mim a única mulher num hotel, dou por mim a única mulher num restaurante, ou dou por mim a única mulher numa reunião.
As estatísticas em Moçambique mostram isto mesmo, a grande maioria das mulheres (essencialmente no campo, onde vive 70% da população Moçambicana) ainda é proibida de estudar, ainda é forçada a casar cedo, a ter filhos cedo, e tomar conta de tudo o que sejam os trabalhos domésticos, incluindo os fisicamente mais pesados.
E nesta África que cresce, e cresce, nesta África dos grandes projectos, dos homens de negócios, dos grandes investimentos e das grandes explorações dos recursos minerais, o papel da mulher também se recria, e uma nova economia vem crescendo. Onde há tantos homens de negócios sozinhos, abre-se o nicho de negócio para a profissão mais velha do mundo, e se sou muitas vezes a única mulher registada no hotel, raramente sou a única que lá dorme. Vêm bem vestidas, algumas aparentam não ter mais que 14 anos (aliás, as mais novas, são conhecidas na gíria moçambicana como “as catorzinhas”) e entram de sorrisos rasgados no hotel, acompanhadas dos homens que já arrumaram os fatos e as malas do portátil que traziam no avião.
Estas são as mulheres das cidades que crescem em torno dos grandes projectos e dos grandes investimentos, esta mulheres já podem escolher, já não são obrigadas a casar cedo, já não são obrigadas a fazer as tarefas domesticas….e escolhem o caminhos mais fácil, o mais imediato. E é assim que os grandes projectos estão a recriar o papel da mulher na sociedade, e a deturpar totalmente o ideal da emancipação da mulher.
Até outro dia,
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011
Sábado, 22 de Outubro de 2011
Bang Bang Club
Uns amigos aqui de Maputo têm por hábito fazer sessões de cinema em casa deles à 5ª feira.
Esta semana, passaram um filme chamado Bang Bang Club, que se baseia na história real de 4 fotógrafos sul-africanos Greg Marinovich, Kevin Carter, Ken Oosterbroek e João Silva, que fotografaram o sangrento fim do apartheid na África do Sul.
Os nomes dos fotógrafos não me diziam nada à partida, mas dois deles ganharam o Prémio Pulitzer no inicio da década de 90 com fotos que fizeram história e que a maioria de nós conhece (eu a primeira não conhecia, mas a segunda faz parte das minhas imagens históricas da fome em África):
E o João Silva, que trabalha actualmente no New Yorks Times, foi bastante falado em Portugal (pois tal como nome indica é português!) há uns 2 anos atrás por ter pisado uma mina numa missão no Afeganistão que lhe vitimou as duas pernas.
O filme retrata um pouco da África do Sul no pré-apartheid, retrata dados crus e fortes desses tempo e da forma como estes fotógrafos lidaram com eles, ao mesmo tempo, por ser de uma história bastante recente, o filme toca nas nossas referências, tornando-se ainda mais interesante.
Vale a pena ver!
Até outro dia,
Esta semana, passaram um filme chamado Bang Bang Club, que se baseia na história real de 4 fotógrafos sul-africanos Greg Marinovich, Kevin Carter, Ken Oosterbroek e João Silva, que fotografaram o sangrento fim do apartheid na África do Sul.
Os nomes dos fotógrafos não me diziam nada à partida, mas dois deles ganharam o Prémio Pulitzer no inicio da década de 90 com fotos que fizeram história e que a maioria de nós conhece (eu a primeira não conhecia, mas a segunda faz parte das minhas imagens históricas da fome em África):
Foto de Greg Marinovich, tirada durante confrontos na África do Sul
Foto de Kevin Carter, tirada no Sudão
E o João Silva, que trabalha actualmente no New Yorks Times, foi bastante falado em Portugal (pois tal como nome indica é português!) há uns 2 anos atrás por ter pisado uma mina numa missão no Afeganistão que lhe vitimou as duas pernas.
O filme retrata um pouco da África do Sul no pré-apartheid, retrata dados crus e fortes desses tempo e da forma como estes fotógrafos lidaram com eles, ao mesmo tempo, por ser de uma história bastante recente, o filme toca nas nossas referências, tornando-se ainda mais interesante.
Vale a pena ver!
Até outro dia,
Freshly ground
Terça-feira, 11 de Outubro de 2011
Hei-de chegar
Nem sempre a chegada é tão fácil quanto esperamos.. Esta foi uma dessas vezes…já aterrei em Maputo há quase um mês, mas ainda me falta chegar!
No inicio era a tese, vim para cá, mas a cabeça estava na maratona de finalizar a tese, que está feita!!! Fechei, consegui, está entregue!!! Pensei que depois disto iria finalmente chegar a Maputo, mas numa saída de campo ao norte do país [à Nampula que tanto conheço], resolvi trazer na mala não só as saudades daquele norte, mas também uma frebrezita tifoidezinha, que demorou mais de uma semana a ser diagnosticada, e que me tem deixado completamente em baixo. Assim, continuo sem aterrar em Maputo, no entanto também estou em falta com Portugal, já que o cansaço (e a vontade de não fazer outra coisa se não estar deitada, graças a estas queridas bactérias) também não me têm dado grande vontade de escrever mails, blogs e afins.
Por isso desculpem os de cá, porque ainda não cheguei, desculpem os daí, porque desapareci. Mas logo, logo, vou chegar. Como dizem por aqui: "hei-de chegar"!!
Até outro dia (em que já tiver chegado),
No inicio era a tese, vim para cá, mas a cabeça estava na maratona de finalizar a tese, que está feita!!! Fechei, consegui, está entregue!!! Pensei que depois disto iria finalmente chegar a Maputo, mas numa saída de campo ao norte do país [à Nampula que tanto conheço], resolvi trazer na mala não só as saudades daquele norte, mas também uma frebrezita tifoidezinha, que demorou mais de uma semana a ser diagnosticada, e que me tem deixado completamente em baixo. Assim, continuo sem aterrar em Maputo, no entanto também estou em falta com Portugal, já que o cansaço (e a vontade de não fazer outra coisa se não estar deitada, graças a estas queridas bactérias) também não me têm dado grande vontade de escrever mails, blogs e afins.
Por isso desculpem os de cá, porque ainda não cheguei, desculpem os daí, porque desapareci. Mas logo, logo, vou chegar. Como dizem por aqui: "hei-de chegar"!!
Até outro dia (em que já tiver chegado),
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