quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Assim se morre em Moçambique

Sexta-feira, 5 de Dezembro, 2008

Como acontece em quase todas as quintas feiras, ontem fui mais uma vez até à região de Djipwi, onde todas as quintas feiras costumamos reunir com diferentes ministérios, para formação e acompanhamento.

Invariavelmente, nesses dias o carro não tem como única função o nosso transporte, mas acaba por também servir de ambulância, para doentes que ao longo da manhã vão chegando a pedir boleia até Itoculo, onde fica o "hospital" mais próximo (a 2h de carro e muitos buracos, e carros, de qualquer maneira, não existem). Embora normalmente os casos sejam de malárias ou pequenas dores e inchados, também por vezes aparecem casos em que a fraqueza já não possibilitaria uma ida ao hospital por meios próprios, e que estariam certamente condenados à morte se não fosse esta ambulância improvisada.

Ontem não foi excepção, cedo começaram a aparecer os doentes. Como sempre vamos dizendo para esperar, mas que os casos mais graves terão prioridade, por isso não podemos garantir até á altura de ir embora. E desta vez, às 11h lá apareceu um desses casos mais graves: Era um menino de cerca de 9 anos, tinha começado com cólera á 6h da manhã, e estava bastante mal. Chamaram-me para eu o ir ver, disse á família para fazer um soro oral, com água, sal e açúcar, e para lhe estarem sempre a dar de beber, quando voltei a ter com o Pedro (neste dia tínhamos ido só os dois), disse-lhe que tínhamos que ver se nos despachávamos, que tínhamos uma criança a precisar de ir rápido para o hospital.

Passado pouco tempo voltei a ir ver a criança, estava a rejeitar a água que lhe estavam a dar, e comecei a ficar um pouco assustada, fui dizer ao Pedro que talvez fosse levar a criança ao hospital, e depois voltaria para o vir buscar. Esperei mais um pouco, e voltei a ir ver a criança, pensando que se estivesse igual seguiria com ela, mas já só cheguei a tempo para a ver a morrer… tinha percebido que ela estava mal, mas nunca pensei que estivesse tão perto de morrer… morreu 30 minutos depois de ter ali chegado, não teria dado tempo de chegar ao hospital, e a criança teria morrido de qualquer maneira, mas não pude deixar de me sentir culpada de não ter pegado logo no carro… é impressionante como é ténue a fronteira entre a vida e a morte…

Assim se morre em Moçambique, em 5 horas esta criança morreu, em 5 horas estes familiares fizeram tudo o que podiam, mas tudo o que podiam não encurta as cerca de 8 horas a pé que as separa do hospital mais próximo…

Até outro dia

2 comentários:

Anónimo disse...

Olá fofinha,
quando se lê um testemunho destes a uma horas da chegada de 2009, quando se pensa nos nossos desejos escondidos, quando se diz que está frio no conforto de uma casa, quando ...Meu Deus, há qualquer coisa intrinsecamente errada nesta engrenagem. Oh poderosos do Mundo, não se pode fazer mais nada?
Oh gente comum, não se pode fazer mais nada?
e há tantos sonos descansados...
porque não se inquietam os corações do mundo? porque são tão poucos?
Um bom ano para todos aí em Itoculo, mamã

Anónimo disse...

Mesmo impressionante... :S
Na Guiné houve um enorme surto de cólera enquanto lá estive. É incrível que continue a morrer tanta gente com uma doença tão estúpida...
Um beijinho e muita força!
Francisco