terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A cólera mata muito, mas as crenças também

Sexta-feira, 12 de Dezembro, 2008

Estes últimos dias aqui em Itoculo têm sido de algum stress, muita gente com diarreias e vómitos, muita gente com cólera, muita gente a morrer, há casas que fecham as portas, há bairros onde morrem 10 ou mais por dia, são crianças, são jovens (já morreu pelo menos 1 dos jovens que estiveram aqui em Itoculo no curso), são papás e mamãs, que em poucas horas desaparecem…

Motivo objectivo de todas estas mortes: estamos no fim das época seca, ainda não começou a chuva e as pessoas bebem águas que nem vale a pena comentar… Existem alguns furos melhorados, mas a maioria da população serve-se de poços que em pouco diferem de latrinas… a água varia entre o branca, vermelha ou castanha, límpida é que nunca! E ainda a falta de higiene, e a forma como doentes e não doentes se misturam, entre fezes, roupas, e lixo.

Surge então a pergunta, mas estão não seria fácil diminuir essas epidemias, por exemplo pondo cloro nessas águas?

Seria, sem dúvida, mas isso implicaria que o motivo objectivo da doença coincidisse com o motivo que as pessoas associam a esta doença.

Ora, para toda a gente (ainda não encontrei nenhuma que não pense assim, ainda que alguns às vezes disfarcem na nossa presença) o motivo de todas as mortes são COMPRIMIDOS!! Portanto, a teoria é: o governo anda a pôr comprimidos nas machambas e nas águas para matar toda a gente. É uma conspiração!

Quais os efeitos práticos disto?

1º - bem que nos podemos matar a dizer para ferverem a água, de que é que adianta ferver, se o governo depois põe comprimidos nas machambas?
2º - bem que nos podemos matar a dizer que é muito contagioso, que não podem andar todos a tocar na porcaria dos que estão doentes, como se nada fosse, e que é por isso que morrem famílias inteiras. Os comprimidos não são contagiosos!
3º - Até seria bom que fizessem algum tipo de tratamento nesses poços, o problema é que se alguém é apanhado a pôr o que quer que seja na água (mesmo que seja cloro, ou algo do género), é obvio que é essa a pessoa culpada, e que essa pessoa é que está a envenenar a água, logo: vamos matar essa pessoa (a palavra matar, não estar a ser usada como um exagero, é efectivamente isso que acontece).
4º - Ninguém está seguro, os nossos cristãos quando saem das reuniões para irem para casa rezam para não serem apanhados no caminho. Se passam num sítio em que ninguém os conhece, pode acontecer que sejam apanhados e, sendo apanhados, é bom não terem nem um pequeno comprimido, porque basta terem um simples comprimido, que é suficiente para serem mortos.

Já morreram várias pessoas por este motivo, o caso que foi mais falado foi de um senhor que era cabo. Foi apanhado não sei onde, acusaram-no, começaram a dar-lhe porrada, foram se juntando montes de gente (dizem que mais de 100), e foram sempre a bater-lhe por uma distância de uns 3 km, até que finalmente lhe espetaram pregos na cabeça e abdómen até o matar!

Assim, o ambiente é de tensão em todos os sentidos, por um lado morre muita gente doente, por outro lado existe entre todos uma tensão horrível, de quem é que terá sido comprado pelo governo, quem é que terá a pôr comprimidos, existe uma terrível desconfiança sobre todos, e um terror enorme dentro de todos.

Ficamos sem saber como lidar com esta situação, fazemos o melhor que podemos, mas enquanto esta crença persistir, todos as anos vai acontecer a mesma coisa antes das primeiras chuvas.

Quanto a mim ( eao resto da equipa missionária), resta-me continuar a desunhar-me a tentar convencer alguns de como se apanha cólera, e rezar para que a chuva venha rápido e a cólera comece a diminuir…

Até outro dia,

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