sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Início das Aulas

Quarta-feira, 30 de Janeiro

Boa noite!

As aulas já começaram! Ontem seria supostamente o primeiro dia de aulas a sério, mas afinal acabei por voltar para casa, pois estiveram a fazer a distribuição dos livros escolares, que são gratuitos. Alguns já estão num estado um pouco mau, mas a maioria até está bastante aceitável, e parece-me que esta história da distribuição gratuita funciona bastante bem, de facto todos têm acesso a livros e, pelo menos este ano, chegaram perfeitamente a tempo útil das aulas.

Hoje já foi mesmo a sério, e agora começam os pequenos problemas para me adaptar a um sistema que em algumas coisas preciso de uma grande dose de serenidade, para me manter sossegadinha, e só assistir, sem fazer qualquer comentário.
Então, o primeiro tempo começa às 7h e acaba às 7h45. Às 7h ainda estão os alunos a fazer concentração em frente á escola, todos formados por turmas, para se cantar o hino nacional e se assistir depois à cerimónia do hastear da bandeira. Depois ainda tivemos direito a um discurso do director (que ao que parece não foi por ser o primeiro dia, ele costuma discursar todos os dias), no fim mandaram os alunos todos para as suas salas, e ainda houve uma pequena reunião de professores. Conclusão: eram 7h35 quando entrei na sala, pelo que apenas tive direito a 10n minutos de aulas, ainda por cima tendo em conta que é sempre a mesma turma que tenho ao primeiro tempo, penso que 20 minutos de aulas por semana irão dar para ensinar imenso…
Enfim, vou ter de aprender a lidar com isto, porque embora se diga que a concentração do hino deve ser às 6h40, para as aulas começarem mesmo às 7h, já me alertaram que, começando pelos próprios professores, isso nunca vai acontecer!

Tenho duas turmas de 7º ano, cada uma com trinta e tal alunos e uma turma de 6º ano, com 56 alunos. Na escola estão chateados porque se inscreveram poucos alunos no 6º ano, e assim, segundo eles, não houve alunos suficientes para fazer duas turmas, parece que o limite mínimo para se fazer duas turmas era haver 70 alunos, o que daria duas turmas de 35, mas como são só 56…temos só um turma!! A idade dos alunos varia um pouco, sendo que o mais velho que tenho tem 25, depois tenho ainda alguns entre os 17 e os 20, e a grande maioria está a baixo dos 17.

Como era o primeiro dia resolvi fazer só um pequeno jogo de apresentação, que correu até bastante bem, mas que deu para tirar algumas conclusões:
  • Na turma de 6º ano, existem cerca de 5 que não falam de todo português, o que significa que muito provavelmente não sabem ler nem escrever, o que até é bastante normal já que aqui o sistema funciona com passagem automática, sabendo ou não todos passam, tirando da 5ª classe para a 6ª e da 7ª para a 8ª, em que têm de fazer um exame. No entanto, mesmo neste exame é possível passar sem saber ler nem escrever, porque a escola tem metas para a percentagem de alunos que passa, o ano passado, por exemplo tinham que passar mais de 95% do alunos…

  • Os alunos não são minimamente estimulados para pensar. O ensino baseia-se no decorar e repetir, o professor lê, os alunos repetem, indefinidas vezes. Vê-se perfeitamente que não estão habituados a ter iniciativa, e é preciso puxar imenso por eles para que saía qualquer coisa (a Felicité, que também dá lá aulas, disse-me que ao inicio, quando ela lhes fazia uma qualquer pergunta lhe respondiam que o professor é que tinha que responder, que eles estavam ali para aprender, por isso não tinham que saber. E diziam isto numa total inocência, de quem acredita mesmo, que os professores é que sabem, e que eles apenas têm de repetir aquilo que lhes é transmitido)


Mas, no geral até gostei bastante do dia, senti-me bastante bem recebida e foi engraçado ver que, no fim da aula, mesmo os mais velhos estavam todos entusiasmados com as actividades, vamos a ver como correm as aulas a sério.


Até outro dia!

4 comentários:

Miguel Ribeiro disse...

Ah! Desta vez consegui ser o primeiro a comentar :-)) A não ser que haja algum problema com a minha net e não me apresente os outros. Seja lá como for, também não tenho nada de jeito para te dizer. Apenas que os teus comentários me fazem lembrar um livro do Mia Couto, "O último voo do flamingo", onde um italiano da onu vinha investigar umas mortes misteriosas, acabando-se por render às evidências de não conseguir encontrar explicações lógicas para o que ia acontecendo. Tens um enorme desafio à tua frente, que é conseguir encaixar a tua mente europeia nos esquemas moçambicanos... Desejo-te boa sorte :-))

Anónimo disse...

Minha nossa, eu acho que com os meus ideais e a minha boca grande não me ia safar muito bem por ai... Não vivi antes de 1974 em Portugal, mas pelo que vejo numa série da RTP que se chama «Conta-me como foi» (não sei se chegaste a ver algum episódio Janica), parece que estás a falar de Portugal antes do 25 de Abril... Não estava à espera que falasses de um País muito à frente, mas também não esperava estes relatos. Bem, vai-te controlando para não te saltar nenhum comentário ai no meio dos discursos LOLOL
Bjs**

Andre Pedro disse...

leio os teus textos e só penso no país retrogado em que vivemos! nao era tão mais facil para todos se adoptassem medidas semelhantes nas faculdades portuguesas?...bah...sem evolução á vista, anatomia já ficou pa setembro! :P (mas as outras (2) até correram bem...ja so faltam 5! :S )******

Dina disse...

Deixa lá filhotinha...por aqui parece que a tendência é a mesma: alunos oriundos de diferentes países sem saberem nada de português integrados em turma ditas normais;professores a terem de definir metas de sucesso e quanto maior melhor porque estamos na Europa.. adaptando o que dizia o outro" até os passamos todos"
Beijinhos....muitos Dina