Sabado, 07 de Maio, 2010
Ontem fui ver uma peça do teatro do oprimido ao centro cultural Brasil – Moçambique.
Já há algum tempo que conheço o teatro do oprimido, porque uma amiga do meu irmão fez uma reportagem há uns 2 ou 3 anos sobre isso, e na altura aquilo interessou-me bastante e andei a fazer alguma pesquisa sobre o assunto.
Entretanto, enquanto estava em Itoculo, houve uma vez em que passou lá um grupo do teatro do oprimido e…. mando-vos parte de um mail que escrevi na altura ao meu irmão:
“em relação ao teatro do oprimido, epá a ideia é muito boa, e em alguns sítios pode resultar, mas aqui (em Itoculo) é uma banhada por completo… não tens noção, apareceram uns tipos do teatro do oprimido, com ligação a Maputo, que vieram passar uma semana a Itoculo, para um projecto contra a sida, epá eles começavam com o teatro e depois pegavam nas pessoas e basicamente fizeram o espectáculo mais deplorantes que vi ate hoje… era basicamente um interrogatório a varias pessoas, que quase parecia interrogatório de policia, mas com perguntas do tipo, “quantas vezes tem sexo por dia?” (a pessoa respondia e toda a assistência ria imenso), “quantos parceiros tem?” (a pessoa respondia e toda a assistência ria imenso), “gosta mais com presservativo ou sem?” (a pessoa respondia e toda a assistência ria imenso)... enfim, não passou daqui... do piorio mesmo. A serio, muito mau mesmo!!”
Portanto fui para esta peça com bastante expectativa, porque de facto tinha referências muito boas, mas uma experiência muito má!!
As peças que fomos ver eram sobre o papel da mulher na sociedade, e foi muito, muito bom! Eram pequenas peças, que retratavam histórias comuns de acontecer aqui, em que a mulher era humilhada. No fim, o público era chamado a dar ideias sobre como resolver a história e, para tal, tinha que entrar na peça e voltar a recriar a peça, mas desta vez com a sua solução, depois havia sempre debate sobre se aquela solução resultava ou não. Desta forma, o público é confrontado com questões e é o próprio que as tem que resolver, pondo-se no papel de quem sofre! Juntando toda esta ideia ao jeito inato e fabuloso que os Moçambicanos têm para representar…epá fabuloso mesmo!!
Agora, voltando a Itoculo, havia uma diferença fundamental entre esta peça e a que eu vi lá: esta tinha uma “facilitadora”, que era quem dirigia todo o debate, com anos de experiência não só em teatro, como na parte das questões sociais e de género…
Estas peças eram o resultado de 1 semana de treino que um jovem de cada província de Moçambique teve, para agora poder voltar para a sua província e fazer lá o teatro do oprimido. Pode até acontecer que um ou outro sejam por natureza bons moderadores, mas na sua maioria, não será com uma semana que o conseguirão ser, além disso, no teatro foi claríssimo que muitos deles faziam na vida real o que ali apontavam como errado, muitas das soluções encontradas não eram de todo naturais para eles, e são eles que agora vão ser facilitadores noutros lados!
É importante, obviamente, que as coisas boas se espalhem, mas se não forem feitas como deve ser, acabam por deturpar completamente o principio inicial… de que vale se conseguir chegar com o teatro do oprimido a todo o Moçambique se ele não cumprir as suas funções fundamentais?
Portanto, conclusão: Viva o Teatro do Oprimido, mas vamos com calma!!! :)
Até outro dia,