Ontem, estava eu a ter uma conversa bastante interessante com um senhor moçambicano, quando às tantas vem ao assunto o Alentejo, e por algum motivo surge a questão de ele ter um problema com Grândola, porque nunca conseguiu ultrapassar o significado da canção…. Eu fiquei a achar bem, o que se passa aqui? Como assim não conseguir ultrapassar o significado da canção? Qual significado é que há a ultrapassar?? Já estava eu na fase de achar: “que desilusão!”, quando ele me contou a forma como a Grandola Vila Morena entra na história de Moçambique no dia 7 de Setembro de 1974.
Para situar transcrevo um texto que encontrei de William Minter no livro "Os Contras do Apartheid":
"7 de Setembro de 1974: em Moçambique colonos brancos exaltados ocupam a estação nacional de rádio protestando contra o facto de Portugal ter concordado com a independência, decorridos dez anos de guerra. Ao grupo FICO e a ex-comandos auto-apelidados de "Dragões da Morte" juntam-se uma mão-cheia de negros opostos à Frelimo, que lutara pela libertação do país. Os manifestantes afirmam querer também um Moçambique independente, só que sem ser governado pela Frelimo. Mas a bandeira que empunham é a de Portugal.
Os rebeldes libertam membros da antiga polícia política que entretanto haviam sido presos. Vigilantes brancos circulam pelos subúrbios africanos, disparando contra civis negros. Em algumas zonas os negros retaliam com paus e catanas. Colonos que haviam partido para a Rodésia e para a África do Sul começam a regressar a fim de apoiar a rebelião. Segundo números oficiais, nos dias que se seguiram morreram catorze brancos e setenta e sete negros. Segundo rumores, houve centenas ou, mesmo, mais de um milhar de mortos."
Nesta mesma revolução, os brancos de direita que tomaram o poder, pelas ruas foram entoando a “Grândola Vila Morena”, enfatizando a frase “o povo é quem mais ordena” e equiparando o seu acto ao 25 de Abril, dizendo que eles, “o povo”, estavam a tomar conta do país.
Engraçado também foi a busca que fiz na internet depois de me contarem esta historia…quase nada existe e o que existe, existe em várias versões, algumas completamente diferentes das outras.
Em Itoculo, meia isolada e no mato, sentia as feridas que a guerra deixava ainda hoje nas pessoas, mas aqui, em Maputo, percebo que as feridas deste povo vão muito mais longe, percebo que são um povo onde muita história está ainda por contar e esclarecer e que, por isso mesmo, o processo de reconciliação com a história está ainda longe de ser feito.
Até outro dia,
3 comentários:
A história nunca é mais do que uma visão subjectiva dos factos. É por isso que os livros de história americanos e japoneses não relatam da mesma forma os ataques com bomba atómica.
É por isso que há quem vanglorie a época dos descobrimentos e quem lhe aponte o dedo pela sua desumanidade.
Ensinar história deveria ser um desafio de pensamento crítico sobre os factos.
Perguntar aos alunos, no passado existiram estas circunstâncias, como agirias tu? Concordas com as decisões tomadas? O que poderia ter sido feito diferente? Isto certamente tornaria diferente a forma como aprendemos e crescemos.
Bom são apenas algumas ideias :)
Bom! que linda menina , agora até pela História se interessa...muito bem.
A pereginação interior e pelos interiores está a dar frutos....
beijinhos
mamã
Excelente história para enviares ao PC Português...
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