segunda-feira, 20 de outubro de 2008

De Volta ao Exercício


Bem, depois de tantos elogios sobre a minha recente formosura, que são reflexo de um ou outro quilito a mais que já ganhei por estas paragens, e dado que o Pedro tem vindo a ficar mais formoso nos últimos tempos, resolvemos voltar ao exercício físico e começar a ir correr dia sim, dia não!!

A primeira dificuldade foi arranjar um horário que satisfizesse ambos os atletas. Durante o dia o calor e o sol fazem com que seja impossível, de manhã cedo só se for lá para as 5h, e penso que acordar às 5h45 já é suficientemente penoso, acabou por ficar então para depois de jantar.

Assim, terças, quartas e quintas feiras, depois de jantar, vêem-se dois mucunhas (brancos), de lanterna na mão, a correr sem razão aparente pelas fantásticas ruas de Itoculo!



Até outro dia!





quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Hoje " Postamos" Nós


E nós somos a Dina e o Zé Pedro, pais da Joana, que, em Agosto, tivemos a grande alegria e o privilégio de visitar a nossa filha e conhecer Moçambique.

Pela mão da nossa filha (cujo sorriso evidencia, em cada momento, a satisfação e a realização pessoal pelo trabalho que está a desenvolver) e de toda aquela equipa missionária, fomos sendo conduzidos a um mundo completamente desconhecido, a uma cultura que nos transcende e nos transforma, carregados que fomos da omnipresente Europa, "detentora" do desenvolvimento.

Lá, no Moçambique profundo, fomos descobrir um povo cujo futuro é o presente e onde o direito à saúde e à educação é uma miragem e os (quase) únicos artefactos são a catana e a sachola.

Um povo que não tem nada, mas onde nada parece faltar. Palmilham quilómetros, não há um animal de carga, não há um arado, não há um tractor. Contudo, transportam em si um sorriso calmo e a dignidade de uma cultura milenar embalada pela cadência morna da música e do omnipresente batuque.

As crianças são lindas, aparecem de todos os lados e rodeiam-nos instantaneamente, num sinal de boas vindas mesclado de curiosidade. Parecem figuras do "Admirável Mundo Novo" agora reescrito ao contrário.

Depois do primeiro impacto, também nós fomos despindo a roupagem ocidental, e fomos mergulhando no ritmo e na paisagem, mas, também, no sossego e desassossego de quem sabe que quase tudo falta e o muito que está por fazer em terras Moçambicanas: as missionárias e os missionários espiritanos em Itoculo e Nampula, e de tantas outras congregações (do Verbo Divino, Combonianos, Pilarinos, da Boa Nova,...) e comunidades (Netia, Monapo, Mueria, Ilha de Moçambique, Nacala, Pemba, Maputo, …).

Não há palavras para descrever o seu trabalho evangelizador, a sua entrega, a sua dedicação a um povo que é também o seu e a quem, aos poucos, o acesso de Moçambique à educação, à saúde e ao desenvolvimento minimamente sustentado tanto deve.

Da humildade e generosidade destes missionários, ficam-nos as palavras de despedida. Tão reconhecidos e admirados com o seu trabalho, despedimo-nos dizendo: "vamos publicitar o mais possível o vosso trabalho" e o Padre Damasceno respondeu: "não é preciso, basta que rezem por nós".





segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Regresso a Casa

Como tudo o que é bom tem de acabar, ao fim de uma semana de passeio a nossa aventura estava no fim! Mais uma viagem de chapa até á fronteira, um bom matabicho em Mamdinba, mais uma viagem de chapa até Cuamba, e umas últimas voltas por esta pequena cidade de ruas de terra batida, até que finalmente no Domingo apanhamos o comboio de volta a Nampula.

Se na viagem para lá éramos só 6 por cada cabine, nesta viagem éramos uns 12, de modo de que se quiséssemos estar todos sentados ao mesmo tempo nem haveria sequer essa possibilidade. Além disso calhamos na mesma cabine que uma querida Indiana, de uma arrogância do pior possível, que achou por bem em cada paragem comprar tudo e mais alguma coisa!!!

Com tudo e mais alguma coisa eu quero dizer: 50 quilos de batatas; 35 quilos de cebolas; 25 quilos de alho, umas 10 melancias, uns 500 repolhos, cana de açúcar, mandioca….. Portanto, se a cabine já era pequena, imaginem…. Além de que mais ninguém conseguia comprar nada!!

Desta vez a viagem demorou apenas as horas previstas: 12 horas! E, tirando os stresses com a Indiana arrogante, deu para aproveitar um pouco mais da paisagem, do ritmo do comboio e da vida que cada paragem emana, onde tudo se vende, tudo se compra, numa mistura de cores e de cheiros tão africanos, tão moçambicanos, tão macuas, tão de alguma forma meus…



Até outro dia!




sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Malawi


Bem, mas no fim, a verdade é que fomos super bem recebidas. A Paróquia de Namwera por si só já é lindíssima, fica junto a um rio, numa zona muito verde, meio mágica, e depois é toda construída ao estilo britânico, tudo muito arranjadinho, jardins muito, muito bonitos, aquele lugar de facto tinha qualquer coisa a lembrar aquelas florestas dos contos de fadas!!

A missão em si tem ainda uma série de estruturas, desde uma carpintaria, a diversas escolas, incluindo uma escola secundária, que acolhe cerca de 150 meninas em regime de internato. Tudo está muito bem organizado e bem estruturado, as meninas vê-se que estão a ter uma educação a cima da média. (Bom, verdade seja dita, que a minha fasquia agora está bastante baixa)

Aliás ao nível da educação, foi coisa que reparamos em todo o Malawi, felizmente lá não existe a história que existe em Moçambique de nada poder ser particular, ou seja, lá a igreja não está de mãos atadas a ver a degradação da educação (como acontece cá em Moçambique), e de facto vão se encontrado montes e montes de escolas cristãs (mas abertas a todos quantos queiram, independentemente da sua religião).

Em Namwera, além da missão, visitamos ainda a escola secundária pública, um orfanato de uma ONG Italiana, que nos pareceu estar a funcionar muito bem, pelo menos parece super organizado, e mais uma vez é um espaço lindíssimo!

Depois, tivemos uma visita guiada até à cidade mais próxima, Mangochi, e até ao lago do Niassa, mas desta vez do outro lado. Bem é difícil dizer qual dos lados acho mais bonito em termos de beleza natural, enquanto do lado Moçambicano o lago parece estar completamente encaixado em montanhas, do lado do Malawi, a anunciar o lago, aparece-nos uma vale de dimensões indescritíveis e de beleza igualmente impossível de expressar, assim toda a zona do lago se encontra numa zona já bastante plana, integrada no vale.

Se em termos de paisagem é difícil dizer o lado melhor, em termos turísticos não existe discussão possível! No lado de Moçambique uns quartitos, um restaurante e um barzito mal amanhados, no lado do Malawi, resorts, hotéis, parques de campismo, restaurantes e bares, todos bastante integrados na envolvente disputam a vista para o lago.


Até outro dia!


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Entrada no Malawi


Voltamos ainda nesse dia para Lichinga, para no dia seguinte (quinta-feira) apanharmos um chapa bem cedinho para Mandimba, que é uma pequena vila a 3 km da fronteira do Malawi, e fica a meio caminho entre Lichinga e Cuamba. A ideia era chegarmos lá, e o padre que lá estava nos levar até á paroquia mais próxima do lado do Malawi, onde estavam uns padres conhecidos que nos iriam receber (isto tudo organizado por um padre com quem tínhamos estado em Lichinga).

Assim foi, às 5h da manha entramos no chapa (desta vez na parte de trás) e andamos até às 6h30 às voltas por Lichinga, com o ajudante desta vez a gritar "Cuamba, Cuamba", e chegamos por volta da 9h a Mandimba. O padre de lá recebeu-nos muito bem e depois seguiu-se este pequeno diálogo:

P. Acácio: como é que estão a pensar em ir até ao Malawi?

Joana e Sandra com cara de parvas: hhhhuuuuuummmmm…..

P. Acácio: Mas querem ir onde no Malawi?

Joana e Sandra com cara ainda de mais parvas: hhhuuuummmmmm…. Bem… nós achávamos que íamos consigo… e tinham nos dito que depois conhecia os padres do lado de lá, e que eles estariam lá… disseram-nos o nome do sítio mas não decoramos….hhhuuuuummmmmmmmmmm

P. Acácio: Eu só cá estou há um ano, e só fui uma ou duas vezes ao Malawi, mas não conheço lá ninguém, o que me disseram foi que vocês iam passar por cá, quando fossem para o Malawi.

Joana e Sandra a passar de cara de parvas para cara de frustradas: hhhhuuummmmm

Bem, neste momento resolvemos telefonar ao padre que "tinha tudo organizado", mas ele estava num sítio sem rede, ligamos a outro padre que sabíamos que costumava ir ao Malawi, e ele lá nos disse o sítio onde éramos para ir (Namwera) e deu-nos o número do padre que lá estava.

Ligamos ao tal padre, e descobrimos que afinal ele já não estava na paróquia vizinha da fronteira, mas sim numa paróquia que ficava a mais de 200 km da fronteira, no entanto deu-nos o contacto de um padre que estava na paróquia que queríamos. Lá ligamos, a este novo contacto que nos disse que seriamos muito bem-vindas, e que só teríamos que chegar até Namwera e ir ter á paróquia e perguntar pelo padre Dominique (é bom dizer que todas estas comunicações foram no Inglês do Malawi, que é um Inglês super fechado, e super complicado de entender, principalmente quando se fala no telefone).

Entretanto, o padre Acácio, que nos estava a receber em Mandimba, disse-nos para almoçarmos lá com eles, e que depois de almoço nos levaria até à fronteira, e que diria a um papá que conhecia bem o Malawi para nos acompanhar, não fossemos nós perder (soubemos depois que este papá era o cozinheiro deles, de modo que ficaram um dia e meio sem comer nada de jeito).

Lá fomos até à fronteira, e já do lado de lá apanhamos um chapa, bem…. Se eu falava mal dos chapas Moçambicanos, aquele…. Em primeiro lugar não existem chapas tipo minibus, só carrinhas de caixa aberta, e depois eu posso vos jurar que não cabia mais nada de nada na parte de trás daquela carrinha!! Ao princípio ainda tentei ir sentada, mas depois percebi que teria que ir em pé, sob pena de ser esmagada e sufocada, entre as mais de 20 pessoas, os cestos gigantes, as bicicletas, e toda a tralha possível e imaginária que ali conseguiram meter!! O que vale é que a viagem nem chegou a meia hora de modo que foi bastante suportável!

Finalmente estávamos no Malawi e chegamos á paróquia de Namwera, perguntamos pelo padre Dominique… ninguém sabia!!! Comecei a pensar que no meu Inglês teria trocado as paroquias, e que o padre com quem eu tinha falado seria de outra paróquia. Os padres não estavam, por isso mandaram-nos esperar, ninguém parecia saber da nossa chegada, de modo que começamos a duvidar realmente de este ser o destino que tínhamos combinado.

Cerca de 1h depois os padres finalmente chegaram, e afinal o Padre Dominique existia mesmo, mas só tinha ido para aquela paróquia à 3 dias, de modo que ainda ninguém o conhecia!!!

Até outro dia!


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Lichinga e Lago do Niassa


Essa tarde foi meia de descanso, meia de passeio por Lichinga, e também de preparação da nossa viagem até ao lago do Niassa. Depois de algumas voltas para ver como haveríamos de ir, um padre (que está de momento a substituir o Bispo do Niassa, até que novo seja nomeado) disse que fazia questão de nos levar pessoalmente ao Lago, que visitas tinham que ser bem tratadas, e que por isso fazia mesmo questão de ser ele a nos levar. Tendo em conta a nossa outra hipótese mais viável seria ir de chapa, resolvemos que deveríamos então aproveitar tamanha hospitalidade.

Este Padre não estava ainda em Lichinga, mas chegaria nessa mesma noite e assim de manhã cedinho seguiríamos para o lago. Assim, nessa noite tentamos entrar em contacto com ele, e nada… no dia seguinte de manha cedo voltamos a tentar e … nada… andamos a dar mais algumas voltas por Lichinga, já um pouco chateadas porque àquela hora já não era muito viável ir de chapa(estávamos a cerca de 1h30 do lago).

Finalmente, por volta das 12h, houve sinal de vida!! Lá combinamos e fomos logo no inicio da tarde até ao lago, ao inicio o Padre estava a ser super simpático, até que a dada altura nos perguntou se já tínhamos estado noutros sítios em Moçambique, dissemos que sim, que estávamos na Diocese de Nacala... bem, a cara do homem foi mesmo a cara do desapontamento… quando ele se apercebeu que nós éramos reles missionárias e não ilustres visitas vindas directamente de Portugal, ficou…. A partir daí a viagem foi bastante mais silenciosa!!

Bem, mas entre curvas e contracurvas de uma estrada montanhosa, de repente abriu-se na nossa frente, bem lá em baixo, a imagem do lago. É difícil descrever a sensação, porque este lago simplesmente não cabe no nosso conceito de lago, é de uma dimensão impressionante, não se vê sequer o outro lado, e como aparece de repente do meio das montanhas, a respiração parece que por uns segundos fica parada, enquanto nos apercebemos da maravilha de tal paisagem.

Essa noite dormimos na paróquia do Lago, que fica ladeada de montanhas de um lado, e de uma falésia sobre o lago do outro, sendo por isso um local lindíssimo. O dia seguinte foi todo passado na praia do lago (o padre deixou-nos lá de manha e depois foi-nos lá buscar à tardinha, quase sem abrir a boca!), nadamos, comemos peixe fresquinho assado, assistimos ao trabalho dos pescadores, descansamos, foi um dia muito agradável, aquela praia era lindíssima, mesmo muito bonita…

Até outro dia!


sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Cuamba e, Finalmente, Lichinga


No Domingo acabamos por ficar em Cuamba, para também descansarmos um pouco… Fomos à celebração das crianças (que era a que ia ser mais tarde), passeamos um pouco pela cidade e no fim do dia tivemos um pouco com os Leigos para o Desenvolvimento que trabalham em Cuamba.

A cidade é bastante simpática, mas tem o problema de não ter ruas alcatroadas e, principalmente agora que estamos na altura seca, aquilo é uma poeirada de todo o tamanho, mas no entanto até é uma cidadezinha ("inha" mesmo, que é bem pequena) bastante agradável.

Na segunda-feira lá seguimos então o nosso itinerário até Lichinga, um papá que nos tinha acolhido lá em Cuamba falou com um chapa para nos ir buscar a casa (que é coisa que eles habitualmente fazem a quem pede) e para irmos no lugar da frente. Foi assim que às 4h30 da manhã estávamos nós a entrar num chapa, mas já não eram bem 4h30 quando saímos de Lichinga, pois desde essa hora até às 7h andámos às voltas em Cuamba com um tipo na parte de trás do chapa a gritar "Lichinga, Lichinga, Lichinga, vamos lá família, esta é a melhor forma de viajar, Lichinga, Lichinga, Lichinga, vamos lá família!!".

Nós já sabíamos que aqui a hora de saída é quando enche, o problema é que neste chapa em particular, o conceito de encher era bastante diferente do nosso, porque encheu até não caber nem mais uma folha de papel, com gente a ir em pé e tudo, deviam estar umas 30 pessoas lá dentro (estou portanto a falar de uma daquelas carrinhas de 9 lugares, tipo minibus)!!!

Bem, felizmente que nesta viagem íamos á frente, o que mesmo assim, com as mochilas, condições do asfalto (ou da falta dele) e tempo de viagem, não foi propriamente confortável. O Chapa era "muito bom", de modo que lhe faltava a marcha atrás, um dos lados estava completamente batido, e tivemos que parar umas 3 vezes para pôr água. Além disso tinha uma propriedade muito boa que era o facto de o pó entrar por tudo quanto fosse canto ou lugar, portanto literalmente "comemos o pó da estrada", quando chegámos a Lichinga, o meu cabelo estava louro, tal era o pó, com que eu estava em cima.

Eram já 13h30 quando finalmente chegámos a Lichinga e, embora já tivéssemos um almoço preparado em cima da mesa, as irmãs Teresianas (que nos acolheram com um carinho e uma hospitalidade incríveis) mal nos viram mandaram-nos tomar banho, tal era o nosso estado de poeira!!

E foi assim que finalmente na segunda feira (e não no Sábado como pretendido) conseguimos chegar a Lichinga, que segundo a nossa programação seria a primeira paragem da nossa viagem.

Até outro dia!