terça-feira, 29 de março de 2011

Regresso a Moçambique

O meu regresso a Moçambique (De Dar-es-Salam a Pemba – 1000 e tal Km) não correu bem, bem como esperado, mas o importante: cheguei, levei um baque de realidade, porque nem todas as viagens são românticas e maravilhosos, porque nem todas as pessoas podem andar em transportes privados ou de luxo, e porque esta é a realidade de todos os que precisam de se mover por aqui. Não tendo sido propriamente bom, foi sem duvida um experiência.

Dar-Es-Salam – Mutuwara:

Tempo previsto de viagem: 8/9 horas

Tempo efectivo de viagem: 12 horas

De bilhete comprado dirigi-me para a estação a achar que a viagem seria do estilo de viagem que fiz quando fui para o norte, num autocarro calminho, em relativamente boas condições e que sai a horas…pois, pois, era bom, era!! Começa logo bem, saímos às 7 horas da gare, para eu descobrir que além daquela paragem ainda existem mais 3 paragens em Dar-Es-Sallam, de modo que já eram 10 da manha quando finalmente saímos mesmo de Dar. Mas não faltou muito para pararmos...umas 3 ou 4 vezes, para arranjar uma avaria!

Finalmente na estrada, cerca de 100 Km da estrada estão em obras, de modo que abriram picadas ao lado da estrada, portanto: 100 Km em picada ao lado de uma estrada em obras…

Para culminar, uma mulher que eu desde inicio achei que tinha uma qualquer demência, resolve deitar-se no chão do autocarro, e começar às cabeçadas (mas senhoras cabeçadas!) ao chão, bora lá desviar para a cidade mais próxima para a levar até ao hospital!

Portanto, finalmente às 21h lá cheguei a Mutuwara (convém aqui frisar, que as 21 horas cá, serão o correspondente mais ou menos à meia noite de Portugal), felizmente, o único senhor que falava inglês em todo o autocarro, durante a viagem já me tinha marcado um quarto para ficar na pensão onde ele ia ficar, de modo que foi bastante pacifico, só chegar e dormir!!

Mutuwara – Moçimboa da Praia

Tempo previsto de viagem: 6 horas

Tempo efectivo de viagem: 12 horas

Alvorada às 6h e às 6h30 já estava dentro do chapa que me levava até ao Rovuma. Às 8 horas já estava com o carimbo de saída da Tanzânia no passaporte, e a atravessar o rio para o lado de Moçambique, mas o pior estava ainda para vir.

Do lado de cá, quando se atravessa está-se absolutamente no meio do nada, mato mesmo mato, a mais de 3 Km da fronteira, dependentes de um chapa (são 3, mas só andam sempre todos juntos, de modo que é como se fosse só 1) de vontade própria. Chego e dizem que temos que esperar um pouco…muito bem… Passado cerca de uma hora, à espera debaixo de uma mangueiras, começo a ouvir algum burburinho, e sem perceber bem o que se estava a passar…

Finalmente, percebo: chegaram 5 policias, que tinham acabado de capturar 31 imigrantes ilegais, 18 da Somália, os restantes da Etiópia. Com a ajuda de paus e cacetes, e empenhando duas kalashnikov, encaminham-nos em fila indiana até ao local onde estávamos, onde os fazem sentar no meio. Esperam que as pessoa que lá estavam se juntem à volta deles, levadas pela curiosidade, e finalmente têm o cenário montado para o espectáculo começar…enquanto gritam “Mozambique no!” (para eles perceberem que não podem voltar a tentar entrar em Moçambique) vão distribuindo porrada a torto e a direito. Mas sem nunca se esquecer que é um espectáculo, por isso ridicularizando, certamente a audiência vai gostar mais: mandam-nos pôr em fila indiana, depois cada um tem que se pôr em posição para levar porrada, correr para o outro lado, deitar-se, levar mais porrada, correr para o outro lado, agachar-se e rezar para a porrada acabar….. Nunca tinha visto nada assim, horrível de mais, mau de mais, forte de mais…uns mantinham a sua postura, muitos gritavam, os mais novos choravam, estavam magros, subnutridos, completamente perdidos e a serem espancados sem perceberem porquê…. Eu não consegui ficar ali, fugi para trás de uma árvore, mas era impossível não ouvir…estava sozinha no meio do mato, queria agir, mas não podia fazer nada….todos os que assistiam achavam aquilo normal…todos achavam que fazia sentido, “assim eles aprendem a não voltar”….

Findo o espectáculo, puseram-nos todos no rio num barco, e mandaram-nos para o outro lado. Segundo o que me disseram, do lado de lá, vão-lhes fazer precisamente o mesmo, e manda-los para o lado de cá, de porrada em porrada, e assim vão acabar por morrer…

Foi das piores cenas que já vi…. Ainda tive que esperar umas boas horas até o chapa arrancar, chapa de caixa aberta, muita chuva, zonas em que atolamos e tivemos que ir todos pela lama, e, finalmente às 21h lá cheguei. Com o físico e psicológico completamente de rastos, decidi ficar um dia a mais por Mocimboa em “convalescência” que me soube muito, muito bem e me ajudou a reconfortar corpo e alma…

Moçimboa da Praia - Pemba

Tempo previsto de viagem: 6 horas

Tempo efectivo de viagem: 12 horas

Depois de um dia de recarregar baterias, consegui arranjar uma boleia para ir para Pemba, que sempre é mais simpático que andar de chapa. Mas…. não tínhamos vidro da frente, portanto além de termos que ir super devagar e a comer mosquitos, começou a chover a meio e tivemos que parar, tapar o carro com uma lona, e ficar sentados lá dentro há espera que a chuva se lembrasse de passar.

Portanto disse há minha amiga de Pemba que chagava para almoçar, e só cheguei para jantar, mas cheguei!!! Mas acho que as viagens de chapa agora vão esperar um pouco, acho que tenho a minha dose para os próximos tempos.

Até outro dia,

2 comentários:

Beatriz Barreiros Morgado disse...

É tudo tão diferente... e lá vais tu sempre alargando horizontes. Força :)Beijinh

Unknown disse...

Querida! O que dizer? É assustador, perturbador mesmo, o episódio a que tiveste que assistir! Um beijo enorme. Estamos juntas em oração. Força!