sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Caminhando por Moçambique

Sexta-Feira, 18 de Janeiro

Estes últimos 3 dias foram de passeio!

Na terça-feira fomos até Nampula, levar o Ricardo (um seminarista que esteve cá a estagiar durante um ano em meio) que regressou a Portugal, e ainda tratar de uma série de burocracias e compras!

Fui por os meus papéis para a autorização de residência, antes davam-nos um DIR, que é uma espécie de bilhete de identidade, com a duração de um ano, mas renovável. Agora as coisas mudaram um pouco, e o DIR, só se recebe ao fim de 2 anos cá, por enquanto tenho direito a um visto de residência precária, que já não é um papel á parte, ma sim um carimbo no próprio do passaporte, mas a tinta dos carimbos deve ser bem mais cara, que fazer um documento novo, pois às 2 meses atrás, quando ainda se recebia o DIR pagava-se 700meticais (+/- 20 euros) e agora custa 2600meticais (+/-75euros), apenas um ligeiro aumento, que quase não se nota!!!

E além deste aumento, este novo sistema faz com que eles fiquem um mês com o meu passaporte, o que não me deixa muito segura pois penso que existe alguma possibilidade de ficar sem ele, até porque tive logo um bom exemplo, estava um senhor na emigração quando eu fui por os papéis, que queria levantar o passaporte, e eles muito calmamente disseram que não o encontravam, e que iriam procurar melhor!

Bom, mas vamos tentar um pensamento positivo, tudo se resolverá!!

A cidade de Nampula, tem crescido de uma forma parva nos últimos tempos, já se consegue encontrar quase tudo na cidade. Claro está que além daquilo que procuramos, encontramos também muito lixo, muitas ruas esburacadas, muitos miúdos de rua a pedir… enfim, o típico de uma cidade que cresceu muito rápido, sem políticas eficientes de ordenamento do território e além disso sem qualquer equidade da divisão dos lucros que advêm deste tão grande crescimento.

O dia foi todo a correr de um lado para o outro. Só para tratar das minhas coisas foi preciso ir a 4 sítios diferentes, fomos ainda ao aeroporto, levar o Ricardo, e foi necessário comprar uma série de coisas, e cada uma das coisas que se compra, compra-se em sítios diferentes, pelo que se anda sempre para trás e para a frente ao longo de toda a cidade!

Eram já 22h quando chegamos de novo a casa, e estava completamente estafada!!

No dia seguinte durante a manha fiquei mesmo por aqui, a tentar descansar um pouco, de tarde fui até Monapo, que é a capital de distrito. Bom, em relação a Itoculo é de facto bastante desenvolvido, mas no fundo é uma aldeia.

Fica a cerca de 10 minutos de carro daqui, e é onde se vais buscar o correio, se trata das coisas do banco e se compra pão, não existem muito mais coisas que isso!

Fui visitar uma missão que lá existe que tem também uma voluntária, que ficará cá durante este ano e que também se chama Joana, tem a diferença que é alemã e loura! Não tive muito tempo para falar com ela, porque foi uma visita de médico, mas há de haver tempo de futuro!

Ontem fui a Nacala. Mais uma vez para fazer compras e tratar de uma série de assuntos! Nacala é uma cidade Portuária, bem, no fundo são duas cidades, a original, que agora se chama Nacala-a-Velha e a mais recente, chamada Nacala-o-Porto, a uns 5 km da original que surgiu por volta da década de 50, quando se aperceberam do porto natural fantástico que aí havia. Assim, Nacala-a-Velha, ficou um pouco estagnada enquanto Nacala-o-Porto, foi se desenvolvendo bastante, face á sua localização estratégica.

Em Nacala visitei um centro de saúde para doentes infectados com HIV, orientados pelo Vicentinos, que tem instalações muito boas, e penso que funciona também muito bem! Fui também visitar uma escola, orientada também por estas irmãs, que fica numa zona periférica, perdida no meio de bairros com uma densidade populacional enorme, e com umas condições completamente deploráveis.

No fim fui ainda á casa das Irmãs Pilarinas, aquilo é um autêntico mundo lá dentro, com creche, centro de saúde, e mais não sei o quê! (Catarina, deixei os teus cumprimentos, elas retribuem, disseram que te fartaste de trabalhar: P).

Assim, foram os meus 3 dias de passeio que me deixaram completamente de rastos, que isto de passear também cansa :P

Até outro dia

Sábado, 19 de Janeiro

Ontem o dia foi finalmente passado em Itoculo, andei a passear por aqui, a conhecer algumas pessoas e os arredores.

Itoculo, tem como centro uma grande praça, que em tempos deve ter sido bem bonita, neste momento resta uma enorme praça de terra batida, com diversas ruínas de casas do tempo colonial, e ainda a casa do chefe de posto local, a escola e um centro de saúde. A rua principal (e única), em tempos asfaltada, é agora em terra batida e sai dessa praça, de um lado para Nacala- a-Velha, e do outro para a estrada que liga Nampula e Nacala (Este estrada sim bastante boa).

A Aldeia estende-se, um pouco aleatoriamente á volta desta praça, sendo que as únicas casas além destas que são efectivamente casas, como nós as configuramos, só mesmo as da missão, todas as outras são palhotas.

Conheci um alfabetizadora, uma senhora dos seus 35 anos, que me esteve a ensinar propriedades medicinais de algumas plantas! Claro que da maneira que eu sou, já não sei qual planta serve para o quê, pelo que nem penso em aventurar a ir fazer misturas, mas as irmãs costumam fazer alguns medicamentos com base em plantas de cá, que distribuem aos doentes, com efeitos muito bons!

À noite houve festa aqui no centro paroquial. Desde terça-feira decorreu um curso de formação para os jovens líderes das suas comunidades, ontem a foi a noite de convívio, e toda a equipa missionária foi convidada para assistir!

Os jovens tinham que fazer teatros sobre os vários temas que foram abordados no curso (cada grupo ficou com um tema) e foi hilariante, este povo tem um jeito inato para o teatro, um teatro muito natural de caricaturar do quotidiano…fartei-me de rir, mesmo sem perceber nada porque fizeram os teatros todos em macua, foram simplesmente hilariantes.

No fim dos teatros houve muita música e dança, uma das irmãs (a irmã joyce) praticamente me obrigou a ir também dançar, de modo que já me estriei nas danças de cá, o que vale é que as danças africanas têm andado na moda por Portugal, de modo que lá consegui atinar mais ou menos com aquilo, e nem dei assim muito mau aspecto!

Enfim, foi divertido, só não foi divertido no outro dia ter que acordar às 5h30 (como todos os dias)!!

Até outro dia!

Segunda, 21 de Janeiro

Bom dia!!

Ontem a hora de acordar não foi às 5h30 como o habitual, mas sim ás 4h30, para às 5h seguir viagem. Mais uma vez, ao domingo lá fomos a mais uma comunidade, desta vez a uma bem longe, duas horas e meia, de muitos buracos, muita lama, e mato até perder de vista. (Não sei como raio é que eles se orientam e não se perdem nos caminhos, não há pontos de referência nenhuns, se me deixassem sozinha a meio do caminho, tenho a sensação que nunca mais ninguém me via!!).

Desta vez fui até Namelima (não sei como se escreve, mais uma vez…) com o padre Damasceno, mais uma vez foi uma missa de duas horas e meia em macua, mas no fim foi engraçado, quando começaram a tentar falar comigo, e com a curiosidade natural, tentarem saber um pouco mais. Embora de facto o tempo que se passe nestas comunidades não seja muito, e embora eu só perceba 1 % daquilo que se diz, as pessoas recebem-nos com um sorriso e disponibilidade tal, que faz com que valha bem a pena.

Quando estávamos a voltar tive um momento assim um pouco mais pesado, abordaram-nos para levarmos um doente ao hospital. Fomos ver, e era um doente que uma das irmãs que é enfermeira tinha atendido no centro de saúde á uns 3 meses, e que enviou para o hospital distrital, mas o hospital pelos vistos mandou-o para casa, disse para ele lá voltar quinze dias depois, mas entretanto ficou de cama, e tendo em conta que ele está a duas horas de carro do hospital (sendo que carros não existem além dos nossos). A Irmã suspeita que ele tenha um tumor na bexiga, a verdade é que já não ia á casa de banho á uma série de tempo e estava completamente em desespero com dores.

Perguntamos se quereria vir então connosco, para pelo menos ser algaliado, mas sabendo que provavelmente não haveria nada a fazer, pois mesmo que seja um tumor benigno, ele teria que ser operado, algo que por aqui não é possível… O senhor disse que queria vir connosco, mas antes disso o Padre Damasceno ainda o baptizou (ele estava a preparar-se para ser baptizado na Páscoa).

Quando estávamos para sair, chamou os filhos, um, a um, para se despedir, e essa parte foi um momento assim bastante emocionante, ele tinha noção que provavelmente não voltaria a ver os miúdos… enfim…

Lá o trouxemos, e ficou entregue aos cuidados do enfermeiro, pelo menos algaliou-o, o que já o aliviou, embora de continue a contorcer-se com dores… assim se morre por estas terras…

Foi um dia cansativo, quer fisicamente, quer psicologicamente, mas no fim do dia, jantamos todos juntos em casa dos Padres, e tivemos direito a sessão de cinema, com pipocas e tudo, o que aliviou bastante o dia, e deu logo outro ânimo.

Até outro dia!

3 comentários:

rita disse...

ola joana.
tal como os amigos que cmg partilharam buracos na estrada e longas horas dentro do jipe, também eu a ler estes teus dias, senti-me de novo a viajar por terras moçambicanas.
espero que encontres Deus de uma forma especial em tudo o que faças.
manda um beijinho muito carinhoso ao P Damasceno e ao P Pedro e às irmas, de facto eles sao uma 2ªfamilia.
e claro um muito grande para ti, continuaremos a rezar por ti

um aviso:
cuidado com o feijao-macaco(se n entenderes pergunta aos padres)

Maria Morango disse...

Tu...perdida? Mas que raio de escuteira és tu?... Ando por aqui a fazer pesquisa sobre o Chinguar. Tivemos o primeiro encontro de preparação, e estou ansiosa, especialmente por dormir só umas 5 horas por noite LOLOLOL
Bj grande** Carolina!!!

Pipa disse...

Será que estou no blog certo?? Tantas palavras escritas, tanta descrição para cada dia. Isto de não haver telefonemas faz magias!!
E antes que me esqueça... até mensagem mandei a perguntar pelo blog e já existia!!! aiai...
Em tão pouco tempo já experimentaste o bom e o mau da terra fantástica que é Africa!!
Aproveita e deixa-te contagiar pela alegria africana que por vezes com tão pouco conseguem ter sempre um sorriso.
Beijos grandes e saudades.