Este foi um grande, grande sábado: fiz a minha primeira visita ao Chamanculo, o bairro onde vou desenvolver a minha tese :)
Fui com um arquitecto que já lá trabalhou na área de reordenamento do bairro, há uns anos atrás, e que agora está a trabalhar com um ONG, na área do saneamento básico, neste mesmo bairro.
Espero agora, no inicio, ter bastante oportunidade de ir, essencialmente, entrando no bairro, de ir aos poucos percebendo como as coisas funcionam, sem inquéritos, sem questionários, sem nenhum tipo de pesquisa “cientificamente aceite”, mas ir indo lá simplesmente, e depois mais tarde, lá começarei então a trabalhar na parte da pesquisa mais “cientifica”.
Ficam as 2 únicas fotos que tirei, em todo um dia no bairro!
Ontem fui com umas amigas a Xipamanine, uma zona na periferia de Maputo que tem um mercado, conhecido por ser um dos maiores de Maputo e por se encontrar um pouco de tudo, e em particular pela quantidade de roupa (em segunda mão) que se consegue encontrar, a preços bastante tentadores!
Para ir para lá apanhamos o chapa…txiii, que saudades deste Moçambique, em que se apanha chapas! Desde que voltei foi a primeira vez que o fiz (triste mas verdade). Antes de chegar ao chapa andei uns 20 minutos a pé pelo centro da cidade (por onde constantemente ando 20 minutos, 30, 40, 1 hora….) centro este que ao fim de semana está absolutamente vazio, como se fosse uma espécie de cidade fantasma. Depois de apanhar o chapa, bastou começar a sair da cidade e entrar nos subúrbios, para pensar: agora sim, aqui sim, está Maputo ao fim de semana!!
Começou o burburinho normal das grandes cidades, pessoas de um lado para o outro, dos dois lados da estrada as casas davam lugar a bancas, lojas, oficinas, onde o informal e o formal se juntam, numa mistura saudável de cores, pessoas, sons…no fundo, numa mistura saudável de VIDA!
Finalmente cheguei ao Mercado, e aqui sim, senti-me a regressar a onde já chamei casa, recordei a primeira vez que fui ao mercado em Monapo, e como tudo me assustou e fascinou ao mesmo tempo, recordei os mercados em Nampula, mais agressivos, e onde das primeiras vezes tudo me assustava, e como depois passei a adorar poder ir sozinha passar por lá!
Compramos capulanas, como não podia deixar de ser, ao preço que eu conprava lá em cima, e não ao preço que costumo ver à venda no centro de Maputo! Fomos até a zona das calamidades, onde a roupa “doada” pelos países “ricos” é vendida, e percebi que as pessoas dão roupas lindas e perfeitamente boas, sem se perceber bem porquê. E assim foi que actualizamos guarda roupas com as últimas tendências da caridade e voltámos ao chapa de sacos na mão, para irmos até à baixa, beber uma bela cerveja numa tasquinha (nada melhor para terminar a tarde!).
À noite fui a um espectáculo de homenagem a Tom Jobim, o espectáculo foi simplesmente fabuloso, além de serem músicas de Tom Jobim, o que por si só já faria com que fosse fabuloso, o grupo era composto por imensos músicos, e os arranjos musicais, e visuais, estavam efectivamente muito, muito bom. Tocaram a música “Gente Humilde” (letra de Chico Buarque e musica de Tom Jobim) que eu não conhecia, mas que me deixou encantada e com um sorriso no rosto.
Em 2008, quando cheguei a Moçambique pela primeira vez, fiquei em Maputo por apenas um dia, mas nesse dia levaram-me a conhecer a lixeira de Maputo, não entrei lá dentro, poucos estrangeiros o "conseguem" fazer, mas fiquei na porta com os jovens da lixeira que aí se juntam.
Estavam felizes nesse dia, tinha chegado um camião com um carregamento de ovos, ovos que tinham germinado e que por isso não podiam ser vendidos, e os jovens, com sorrisos, cozinhavam os pássaros-embriões em latas pretas da fuligem.
O cheiro era indescritível, as moscas amontoavam-se, cumprimentei cada um dos jovens. Cumprimentei e senti vergonha do que sentia enquanto os cumprimentava, senti uma enorme repulsa… o cheiro, as suas mãos que vasculhavam o lixo, os pássaros amontoados, o calor, as muitas horas de voo quase sem dormir, o primeiro contacto com África…. Quis fugir…
Saí da lixeira o mais rápido que consegui, ainda nesse dia segui para o Norte, Maputo ficou longe… Agora estou de volta a Maputo, mas nunca mais voltei à lixeira….
Hoje fui ver um documentário sobre esta lixeira, vi a porta onde estive, vi os jovens lá a cozinhar…. Voltou o cheiro, voltou a mistura de sentimentos da altura… e a inquetação de às vezes me esquecer deste outro Maputo…
Ontem fui ao teatro, ver a reposição de uma peça do grupo Luarte, que faz 10 anos de existência (http://www.teatroluarte.blogspot.com/).
A peça chamava-se JOANA MOÇAMBIQUE, foi apresentada em cena pela primeira vez no ano de 2005, e é considerada uma das peças mais polémicas que o grupo já fez.
A personagem Joana personificava Moçambique, um Moçambique caótico; um Moçambique doente; um Moçambique decadente; um Moçambique que vive de se prostituir aos fundos dos estrangeiros; um Moçambique que vive mais preocupado em agradar a quem lhe pode dar dinheiro, do que com quem é realmente moçambicano; um Moçambique que cada dia perde mais a sua reputação e dignidade, em troca de um estilo de um nível de vida que não é o seu.
Por outro lado, se tomarmos a Joana efectivamente como uma pessoa, então aquela era a caricatura perfeita das centenas de moçambicanos e moçambicanas que se passeiam pelos bares mais finos de Maputo, onde os estrangeiros se passeiam também à sua procura. Poderia se considerar uma troca leal e justa, uns procuram prazer, outros procuram dinheiro, todos conseguem o que procuram, todos ganham…. Mas a verdade não é bem essa, os que procuram o prazer, ficam aqui 2 dias, 2 semanas, 2 meses, 2 anos e depois voltam para o seu mundo, os que procuram dinheiro estão aqui e por aqui ficarão, e enquanto houver quem pague continuaram a vender o seu corpo, até ao dia em que a idade ou a doença não permitam mais, e nessa altura já pouco deles restará…
Um amigo meu, moçambicano, muitas vezes diz que a única maneira de Moçambique se desenvolver será quando recuperar a sua dignidade, aprendendo a “fechar as pernas”: no acto final da peça, Joana Moçambique aparece de pernas abertas, escancaradas, e assim morre corroída pelas doenças que se apoderam do seu corpo.
A professora voltou? Vai voltar para aqui? Vai ficar connosco?
Não, não voltei, não vou ficar, vim visita só! Vim visita só, mas perdi-me a admirar cada espaço e cada momento. Vim visita só, mas desejei voltar, daquele voltar mesmo a sério, desejei ficar. Vim visita só, mas orgulhei-me a ver como os meus miúdos cresceram e são agora homens e mulheres feitos. Vim visita só, mas o só foi tão pouco, tão pouco, que afinal percebi que não voltei. Vim visita só, e percebi que tenho que voltar, voltar mais a sério, voltar com tempo, voltar com espaço, voltar e simplesmente ficar...talvez um dia....
Depois de um total de quase dois meses em Moçambique, mas quase todos passados no sul, eis que finalmente rumei ao Norte e ainda por cima para fazer o trabalho que mais gosto “passear pelo mato”!! Pronto, ok que era trabalho, tinha obrigações e horários, pontos para analisar, prospecções a ser feitas...mas bolas, percorrer o norte do país de uma lado ao outro no meio daquelas montanhas deslumbrantes...epá, que todos os trabalhos fossem assim!! :)
E depois ficam sempre os pequenos momentos e as pequenas peripécias para contar e as fotos para mostrar:
• Em Cuamba reencontrei a Joana Pedro (a que nasceu depois de mim!!) e foi lá, com ela, que assisti ao Portugal-Espanha num café em que todos os outros torciam por Portugal
• Numa pensão em Ribaue perguntamos se havia água quente, ao que ouvimos a resposta “sim menina, de balde, mas hoje não temos que a lenha acabou”
• No ultimo dia acabar o trabalho na esplanada de Nacala com uma vista simplesmente maravilhosa e recordar o local onde em algumas tardes de domingo ou segunda vinha respirar um pouco daquele mar fabuloso
Epá, venham mais trabalhos destes, que o corpo ressente um pouco, mas o espirito agradece, e muito! :)