segunda-feira, 9 de junho de 2008

Vai ser Ano de Fome


Parece que os mercados do Ocidente se agitam face à crise alimentar que se adivinha, dizem os entendidos que será a maior crise alimentar dos últimos 30 anos, espera-se fome, espera-se que os países da África subsariana sejam aqueles que vão sofrer mais…


Enfim, todos esses avisos seriam suficientes para assusta, e de facto nos mercados os preços dos bens alimentares sobem de forma alarmante, uma saca de arroz, por exemplo, subiu numa semana de 400 meticais para 500 meticais. A única excepção foi o pão, que estranhamente desceu de preço a semana passada.


Agora a tudo isto juntarmos o facto de nesta zona a chuva ter acabado bem mais cedo que o normal, o que levou a que o milho tenha secado todo, só quem plantou no inicio das chuvas tem alguma coisa de jeito, feijão ninguém tem, algodão quase não deu nada, gergelim (que o ano passado foi uma grande fonte de rendimento) não deu nada e mesmo a mandioca não está para produzir muito.


Tendo em conta que a base da alimentação aqui é a farinha de milho e o feijão, e que a venda destes mais o algodão e gergelim são as únicas fontes de rendimento, porque empregos são praticamente nulos os que existem, já se está a ver no que isto vai dar!


Espera-se um ano de fome…

Assusta esta previsão, assusta a impotência face á situação… E o que é mais impressionante é a falta de capacidade que este povo tem de se precaver, de tomar atitudes a pensar no futuro. Estamos agora em época de venda de milho, fartamo-nos de dizer às pessoas para armazenarem algum milho porque os preços vão disparar e depois não vão ter meios de o comprar, e todos nos dizem "não temos onde o guardar", "precisamos de dinheiro agora", então vendem praticamente todo o que têm por qualquer coisa como 3 meticais o quilo, sendo que a previsão do preço do quilo na altura me que vão precisar de comprar para sementeira, será no mínimo 25 meticais por quilo!


Vivem o dia-a-dia, não pensam no amanha, têm medo de não aproveitar no momento e morrer sem usufruir do que têm, e a ideia de herança, a ideia de que o que tiver fica para os meus filhos de todo não existe!


Bom, vamos a ver o que o futuro nos reserva, as irmãs têm um projecto de apoio a crianças subnutridas que já tem financiamento, falta só a aprovação da congregação para se andar com ele para a frente, vamos ver se ainda chega a tempo de fazer face á crise que se adivinha.





Até outro dia!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Reunião de Professores

Terça-feira, 20 de Maio de 2008


Hoje tive uma reunião na escola, eu bem que tenho conseguido escapar a mais de metade das reuniões que eles fazem, mas desta vez lá me pesou a consciência e resolvi ir à reunião.


A reunião foi marcada para as 15h30, hora esta em que os professores ainda estão a dar aulas ao turno da tarde, mas o que é que isso importa? Manda-se os alunos mais cedo para casa, que não é nada a que eles não estejam habituados!


A reunião durou qualquer coisa como 5 horas, que espremido se resume a pouco ou quase nada, foi basicamente falar da vida de cada um, e pouco mais, mas enfim, esta é uma parte totalmente cultural, a frase "tempo é dinheiro" não faria qualquer sentido nesta cultura, e de facto ninguém olha ao relógio, quando é para se estar sentado numa quase nulidade de produção.


Bom, mas após quase 4h30 de reunião, quando parecia que já tudo estava terminado e que nos poderíamos retirar, o director diz que afinal ainda ficou um assunto por tratar e que é muito importante, tendo mesmo que ser tratado nesta reunião. Ainda me intriguei. "que assunto é este, que não pode esperar?"


Então, o assunto de extrema importância e que não podia esperar era começar a organizar aquilo que se vai fazer no dia do professor, porque já não existe muito tempo para se preparar, nisto todos concordam que já está quase e que temos de preparar.


Resolvi nesta altura perguntar em que dia seria então o dia de professor, então o dia do professor é "já" no dia 12 de OUTUBRO, faltam portanto mais de 4 meses. Tenho sérias dúvidas que tenha conseguido disfarçar como deve ser a minha expressão de estupefacção, por estar quase às minhas horas de dormir numa reunião a discutir um assunto de tamanha importância.


Falaram de muita coisa, houve alguma discussão sobre o que se ia ou não fazer e ficou decidido que para comemorar se iria fazer uma saída à ilha de Moçambique. Cozinha-se no dia de manha cá em Itoculo e depois leva-se para lá, onde jantaremos e conviveremos.


Passou-se de seguida para a discussão de qual deveria ser a contribuição de cada um, começou por sair o valor de 300 meticais, depois passou para 400 meticais porque o custo de vida sabe-se que vai aumentar, por fim já falavam em 500 meticais (qualquer coisa como 15 euros), eu pedi a palavra, para dizer que da mesma forma que o custo de vida iria aumentar para o jantar, também iria aumentar para o resto, pelo que talvez não fosse bom gastar assim tanto só num jantar, ao que eles olharam para mim, e continuaram a discutir como se eu não tivesse aberto a boca.


No fim sempre ficaram os 500 meticais, agora importa ter em conta que o salário de um professor não chega sequer a 70 euros, e que para se gastar 15 euros num jantar aqui é preciso comer como se não houvesse amanha, e ainda assim, possivelmente sobra, e que quase todos estes professores têm mais do que um filho para alimentar, e costumam ter algumas dificuldades nessa tarefa.



Até outro dia!



terça-feira, 3 de junho de 2008

A Capacidade de Armazenamento do Estômago


Eu não sei se já alguma vez comentei isto no blog, mas se por acaso já o fiz, não é demais repetir, porque de facto não me deixa de espantar a quantidade de comida que este povo consegue enfiar no estômago, a uma velocidade doida!

Uma pessoa menos atenta até pode pensar que é uma questão de fome, e quando vêem comida comem desalmadamente, mas não, mesmo aqueles que não têm qualquer dificuldade em se alimentar come como se não houvesse amanha, quantidades tais, que eu penso que se juntar todas as refeições que como durante o dia não chega a tanto.

A verdade é que quem trabalha na área da saúde diz que eles têm uns estômagos dilatadíssimos, de facto só pode, porque se não aquilo seria humanamente impossível!


Até outro dia!


domingo, 1 de junho de 2008

Pequeno Desabafo


Hoje descobri que qualquer pessoa que tenha dinheiro no banco, e a sua conta desça abaixo dos 1500 meticais (cerca de 40 euros) é lhe retirado 300 meticais. Isto é para todas as pessoas, seja qual for a conta. Ora, 1500 meticais para aqui é uma autêntica fortuna é metade de um salário de um professor, e ainda por cima os professores são obrigados a ter conta, porque os salário têm que ser pagos por transferência.


É assim, é a politica do pobre cada vez mais pobre no seu melhor!!!


Até outro dia!




quarta-feira, 28 de maio de 2008

Medicamentos


Domingo, 18 de Maio, 2008


Penso que já descrevi em algumas situações o quão bem que o sistema de saúde aqui funciona. Começa pela falta gritante de unidades de saúde, cada centro de saúde cobre áreas absolutamente inimagináveis, principalmente para quem tem as dimensões do nosso Portugal na cabeça. Depois a maioria destes centros de saúde são desprovidos de quase tudo, quer de material de trabalho, quer de técnicos especializados, possuem apenas enfermeiros, que aqui têm uma formação bastante diminuta.


Aqui em Itoculo fica um destes centros de saúde que com 2 enfermeiros e uma farmácia, faz mais de 200 consultas por dia.


Os casos de doentes mais graves são enviados para o hospital distrital, que fica em Monapo. Para que a ambulância venha é necessário que alguém tenha crédito (o que muitas vezes não acontece) e é preciso ainda que alguma das ambulâncias tenha combustível (o que na maioria das vezes também não acontece), caso contrario os doentes (estamos a falar dos doentes mais graves) terão de ir sozinhos e aqui os transporte públicos não costumam abundar (para quem pode pagar existe um chapa, mas que passa quando o senhor lhe apetece, e que nem é todos os dias).


O hospital distrital, de facto já tem UM médico, tem também técnicos, que são superiores aos enfermeiros, mas de resto falta-lhes praticamente tudo, desde a comida para os doentes, até aos ordenados, nada existe.


A situação normal já é portanto muito boa, então, para se juntar a estas condições já por si normais, os stocks de medicamentos acabaram! Não existe uma aspirina, um único paracetamol, nem um único anti-malárico (que aqui ataca de forma incrível), isto ao nível de toda a província de Nampula (que é enorme e tem uma densidade populacional também bastante alta).


Ninguém percebe bem o porquê desta rotura de stock, como aliás nunca ninguém percebe bem aquilo que acontece com tudo o que mexa em dinheiro, portanto, os fundos entraram, os medicamentos não saíram… típico!!


O povo aqui costuma dizer, "eles querem que morramos todos", bem com a falta de medicamentos, principalmente de anti-maláricos é mesmo isso que parece…



Até outro dia!


(Na terça-feira seguinte à elaboração deste post os anti-maláricos finalmente chegaram!)




segunda-feira, 26 de maio de 2008

Gabriel


Sexta-feira, 9 de Maio, 2008


No inicio da minha carreira bloguistica, falei-vos que tinha arranjado um amigo, o Gabriel.


Bem, pouco depois de eu ter escrito esse texto, como que adivinhando que tinha sido exposto internacionalmente, o meu amigo desapareceu, deixou de aparecer por aqui, deixou de ir á escola, enfim, deixei de o ver de todo!


Fui averiguar o que raio se teria passado, e então soube a história toda, que passo a resumir:

O Gabriel, de quem ninguém sabe quem são os pais, foi acolhido por um casal: o professor Pedro, que até ao ano passado leccionava em Itoculo, e a mamã Helena. Ora, parece que o professor Pedro, além da Mamã Helena, mantinha relações com a vizinha, por sinal mulher do seu melhor amigo.


Agora é a parte em que vocês se questionam, sobre qual é o interesse de eu me por para aqui a fofocar sobre a vida privada das pessoas!! A questão é que a expressão "vida privada" é algo que não faz muito sentido aqui por estas bandas.


Então esta questão da "vida privada" do pai do Gabriel arrastou-se por muito tempo, e no bairro todas as pessoas foram descobrindo, até que o próprio enganado descobriu também e então, levou os adúlteros ao tribunal comunitário, que funciona nos bairros, para os casos que não necessitam de ir ao tribunal constitucional, e em que todos participam e discutem a vida privada de cada um. Este tribunal decidiu então que o Professor Pedro teria de abandonar Itoculo.


Assim, o Professor Pedro pediu transferência e foi dar aulas para a Carapira, uma missão vizinha, deixando cá a mulher e os filhos.


Para o Gabriel isto foi um autêntico choque, e ainda apor cima, em casa quem tinha mão nele era o pai, a mãe dá a sensação que não lhe liga muito, então ele começou a ficar revoltado com a situação, passou a faltar à escola, às celebrações, começou a andar todo esfarrapado e finalmente fugiu para Monapo, na esperança de encontrar o pai.

Bom, mas este post não tinha como objectivo falar tanto deste problema, e só o expliquei para poderem perceber a minha alegria ao dizer: o Gabriel voltou!!!!


O pai ao fim de cerca de um mês encontrou-o em Monapo, e trouxe-o de volta a Itoculo. No outro dia fui até casa dele falar um pouquito com ele e agora comecei a dar-lhe aulas dois dias por semana.


Só comecei a semana passada, e descobri que ele afinal consegue articular praticamente todos os sons, desde que lhe explique como pôr a boca, e insista bastante, de modo que vou continuar a tentar e espero que adiante de alguma coisa!



Até outro dia!


sexta-feira, 23 de maio de 2008

Afinal a Raiva não é um Mito Urbano


Quinta-feira, 8 de Maio, 2008


Quando me falam de raiva, lembro-me sempre de todos os aviso que ouvia quando era mais nova, para ter cuidado com os cães vadios, que podem ter raiva, e que se por acaso formos mordidos por um devemos ir logo tomar a vacina, porque a raiva mata… enfim, sempre ouvi uma série de avisos, mas nunca ouvi falar de alguém que tivesse tido raiva, ou de algum cão raivoso.


Assim, a raiva tornou-se para mim um daqueles mitos urbanos, toda a gente fala dela, mas nunca ninguém a viu. E de facto, se por acaso um cão vadio me mordesse duvido muito que me fosse lembrar de ir ao hospital atrás de vacina.


Mas afinal, a raiva existe, e mata mesmo! Na segunda-feira, o Padre Arlindo, Padre Diocesano da Paroquia de Netia (Paróquia onde estavam os espiritanos antes de virem aqui para Itoculo) faleceu, vitima de raiva que lhe foi transmitida por um cão que o mordeu em Dezembro. Tinha 32 e tinha sido ordenado à 2 anos, na semana passada tinha estado cá em Itoculo para a ordenação do Bartolomeu, e embora se queixasse que não estava muito bem, estava bem disposto. Entretanto começou a ficar pior, até que no sábado começou mesmo a ficar maluco, e todo o corpo começou a entrar em colapso.


Em dois anos é o segundo padre novo que a paroquia de Netia perde, ambos diocesanos, o outro tinha sido de acidente.


Enfim…


Até outro dia!