segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O papel das mulheres recria-se

Uma das coisas que tem marcado o meu trabalho nos últimos tempos é o viajar. Semana sim, semana não, faço a mala para entrar num novo avião, geralmente sozinha. Tal como eu, a maioria das pessoas no avião viaja em trabalho, envergando os seus fatos de trabalho e as suas malas do portátil (aqui eu destoo, com a minha roupa de ‘pessoa normal’ e a minha mochila desportiva onde carrego o portátil – pois é mãe, um dia tenho que ser uma mulher, que já tenho idade, não é?). E, invariavelmente, são sempre muito mais homens que mulheres.

Torna-se por vezes assustador, quando nestes percursos de viagens de trabalho dou por mim a única mulher numa fila para o carimbo dos passaportes, dou por mim a única mulher num hotel, dou por mim a única mulher num restaurante, ou dou por mim a única mulher numa reunião.

As estatísticas em Moçambique mostram isto mesmo, a grande maioria das mulheres (essencialmente no campo, onde vive 70% da população Moçambicana) ainda é proibida de estudar, ainda é forçada a casar cedo, a ter filhos cedo, e tomar conta de tudo o que sejam os trabalhos domésticos, incluindo os fisicamente mais pesados.

E nesta África que cresce, e cresce, nesta África dos grandes projectos, dos homens de negócios, dos grandes investimentos e das grandes explorações dos recursos minerais, o papel da mulher também se recria, e uma nova economia vem crescendo. Onde há tantos homens de negócios sozinhos, abre-se o nicho de negócio para a profissão mais velha do mundo, e se sou muitas vezes a única mulher registada no hotel, raramente sou a única que lá dorme. Vêm bem vestidas, algumas aparentam não ter mais que 14 anos (aliás, as mais novas, são conhecidas na gíria moçambicana como “as catorzinhas”) e entram de sorrisos rasgados no hotel, acompanhadas dos homens que já arrumaram os fatos e as malas do portátil que traziam no avião.

Estas são as mulheres das cidades que crescem em torno dos grandes projectos e dos grandes investimentos, já não são obrigadas a casar cedo, já não são obrigadas a fazer as tarefas domesticas….Há quem diga que já podem escolher... E assim os grandes projectos recriam o papel da mulher na sociedade...

Até outro dia,

Sem comentários: