quinta-feira, 13 de março de 2008

Assim se Morre em Moçambique

Quarta-feira, 26 de Fevereiro 2008

Boa noite!

Hoje tive o meu primeiro contacto directo com a morte em terras moçambicanas. De manhã chegou ao hospital uma criança de 10 ou 11 anos que pesava 11K e 200g, veio trazida por um tio, desde djipwi, que fica a 2h30 de carro daqui (aqui é onde fica o centro de saúde mais próximo, mas que nem médico tem).

A criança foi atendida pela Irmã Augusta, que se deparou mais uma vez com a questão que a tem perseguido muitas vezes desde que começou a trabalhar no centro de saúde: - para onde encaminhar as crianças subnutridas? Aparecem imensas no centro de saúde, muitas delas (como este) chegam num estado de subnutrição já bastante avançado, e não existe sítio para o encaminhamento, a única hipótese é enviar para o hospital em Monapo, mas que também não faz muito…

Para esta criança, e vendo o estado de subnutrição em que estava, a Irmã augusta, depois de lhe dar uma série de vitaminas e mais não sei o quê, disse para passarem em casa das Irmãs de tarde, para lhes darem alguma farinha. A criança quando chegou a casa das irmãs estava já a revirar os olhos, e a respiração já estava muito alterada, enfim, a irmã que os recebeu percebeu logo que ela não iria sobreviver, e disse ao homem para deitar a criança á sombra para pelo menos ela morrer em paz!

Quando cheguei a casa das irmãs já tinha falecido. De facto, quando vemos aquelas fotos de crianças/esqueletos é muito diferente de ver ao vivo… como é que é possível deixar uma criança chegar aquele ponto e só agora vir ao hospital? A criança só tinha ossos mesmo…é impressionante…Enfim, usando uma frase que já usei: assim se morre em Moçambique!

Entretanto o senhor por causa de quem usei esta expressão pela primeira vez já faleceu.

Até outro dia.

2 comentários:

Arpedro disse...

Tenho-te lido, apesar de não comentar. Desta vez, não consegui ficar só pela leitura.
Mesmo não sendo novidade a situação que descreves, lê-la escrita por ti, parece ganhar outros contornos.
Depois, comparar o peso dessa criança com o da Adriana (cerca de 12kg), que tem menos 9 anos, deixou-me arrepiada e angustiada. É realmente uma injustiça!
Espero que continue tudo a correr-te o melhor possível. Não consigo deixar de achar que é admirável o teu papel no mundo.

Beijo grande e um abraço apertado da prima
Bela

Miguel Ribeiro disse...

Infelizmente morre-se assim em muita parte do mundo! Como é difícil olhar para estas coisas sem poder fazer nada.
Que a nossa vivência da Páscoa seja compromisso para que não se morra mais desta maneira!
Bom trabalho Joaninha!